Princípios de Estudo da Bíblia com John Wesley

Por Tiago Rosas
Para ler, entender, praticar e ensinar
Conhecido ao lado de seu irmão, o poeta Charles Wesley, e de seu amigo George Whitefield, dentre outros, como “clube santo, devoradores da Bíblia e metodistas"(1), o famoso pregador e avivalista inglês do século 18, John Wesley, resume em poucas palavras seu método de leitura e estudo da Palavra de Deus, que eu aqui esquematizo nos três seguintes pontos, confiante de que seja um bom modelo para nossos dias também:
1. Oração para iluminação divina, discernimento e prática da Palavra
2. Leitura investigativa da Bíblia, "comparando isso com aquilo"
3. Auxílio de comentários bíblicos para melhor compreensão do texto bíblico
Nas palavras do próprio Wesley (2), vejamos estes três passos metodicamente:
"Há alguma dúvida a respeito do significado daquilo que leio? Parece alguma coisa difícil ou intricada? Ergo o meu coração ao Pai das luzes; 'Senhor, não é tua palavra, se alguém necessita de sabedoria peça a Deus? Tu dás liberalmente e não lanças em rosto. Tu disseste: se alguém quiser fazer a tua vontade, ele a conhecerá. Eu quero fazê-la, dá que eu conheça a tua vontade'[1°]. Eu então pesquiso e considero as passagens paralelas das Escrituras, 'comparando as coisas espirituais com as espirituais'. E então medito com toda a atenção e sinceridade de que é capaz a minha mente[2°]. Se ainda persiste alguma dúvida, consulto aqueles que são experimentados nas coisas de Deus e, então, os escritos que estavam quase mortos, ainda falam[3°]. E o que assim aprendo, isso ensino"
SOBRE O PRIMEIRO PASSO, a oração, quero salientar que de fato e verdade, é este um passo indispensável a qualquer leitor da Bíblia que quiser apropriar-se dos tesouros da santa Palavra de Deus (logo após falar da “espada do Espírito”, Paulo exorta: “Orando em todo tempo...” Ef 6.17,18). O Espírito Santo foi quem soprou o texto nos seus autores originais, e é, portanto, o grande intérprete da Palavra, e dele dependemos inteiramente para chegar a uma compreensão adequada do que está escrito. Pela oração não nos faremos grandes exegetas, mas sem ela não adquiriremos aquele bom senso, moderação e sabedoria necessários à piedade cristã; a oração poderá não dirimir todas as nossas dúvidas sobre nuances do texto sagrado, mas nos disciplinará para que não sejamos céticos quanto ao que Deus diz, nem lerdos quanto ao que nos for ordenado fazer, nem ainda soberbos quanto ao que viermos a descobrir. Neste sentido, estava certo o pregador Charles Finney quando disse: "faze da Bíblia o teu livro dos livros. Estude-a muito, de joelhos, esperando iluminação divina" (3). Para Wesley, que costumava orar pelo menos duas horas diariamente, a oração deve preceder e suceder o estudo das Escrituras, pelas seguintes razões:
“A oração séria e sincera deve ser constantemente usada antes de consultarmos os oráculos de Deus, visto que ‘a Escritura só pode ser entendida através do mesmo Espírito que por ela foi dado’. Devemos igualmente terminar a nossa leitura com oração para que aquilo que lemos seja escrito no nosso coração” (4)
Nenhum outro livro pode-se contar com a presença sempre perto do Autor, como a Bíblia sagrada. Mas quão distantes estão deste Autor, aqueles que negligenciam este importante canal de diálogo com Ele, que é a oração! Quem não ora, conhecerá a letra, mas nunca receberá a vida que emana do texto sagrado!
SOBRE O SEGUNDO PASSO, é o método de leitura contextual que todo crente sábio deve adotar para melhor proveito das Escrituras, tanto para sua edificação particular quanto para a pregação ou ensino. Antes de partir para os comentários bíblicos, devemos ler e reler o texto, buscando na própria Bíblia as respostas para as perguntas que levantamos. Que diz o restante do capítulo? Que diz os capítulos anteriores e posteriores sobre este tema? Qual a conclusão a que o próprio autor chegou após afirmar isto? Qual o destinatário, resumo e propósito deste livro? Quantas vezes esta palavra se repete neste mesmo livro e qual o significado mais comum que ela recebe? O que dizem os outros autores do mesmo Testamento (Novo ou Velho) sobre este mesmo assunto? Este episódio foi narrado por outro autor? Que gênero textual é este? Um sermão? Um hino? Uma profecia? Uma crônica? Que figura de linguagem está empregada aqui? Uma metáfora? Uma hipérbole? Um eufemismo? Como os autores do Novo Testamento interpretaram esta profecia do Antigo Testamento? - são algumas de muitas perguntas que o bom estudante da Bíblia deve fazer, com vistas a alcançar uma compreensão adequada, retirando de dentro da própria Bíblia o significado de seus textos, antes de especular e conjecturar ou recorrer aos comentaristas da Bíblia. Wesley mesmo ressalta uma importante regra da Hermenêutica Bíblica: “A regra geral da interpretação da Escritura é esta: o sentido literal de cada texto deve ser tomado se ele não contraria algum outro texto; nesse caso o texto obscuro deve ser interpretado por outros que falem de modo mais claro” (5). Nesse trabalho de esmiuçar o texto bíblico, o uso de diferentes traduções, bem como o conhecimento das línguas originais da Bíblia, será de grande auxílio.
Os exegetas Gordon Fee e Douglas Stuart insistem que a investigação do contexto literário é a tarefa mais crucial da exegese, e que “felizmente é algo que você pode aprender a fazer bem sem ter de consultar necessariamente os ‘especialistas’” (6). Há muitos estudantes bíblicos que já se viciaram em correr aos “especialistas” mesmo antes de procederem sua própria investigação, tornando-se obsessivos pela “opinião deles”, e reprodutores acríticos de conclusões alheias, mesmo quando estas estão fora de sintonia com a sã doutrina. Não deveríamos buscar a nobreza dos crentes de Beréia? Mesmo que sendo instruídos por homens de Deus como o apóstolo Paulo, não deixavam de examinar cada dia nas Escrituras se as coisas por eles pregadas eram realmente assim (At 17.11). Infelizmente, muitos leitores e pregadores são como garimpeiros preguiçosos que não se lançam ao rio para garimpar, antes ficam às margens aguardando os outros garimpeiros saírem, trazendo em suas peneiras as pepitas que encontraram, para tomar de suas mãos e então mostrar a outros: “vejam o que achei!”. Fee e Stuart advertem: “primeiro faça suas próprias observações!”(7), ou como ensinava Finney, “evite depender dos comentários. Consulte-os quando convier; porém julgue por si mesmo, à luz do Espírito Santo” (8).
SOBRE O TERCEIRO PASSO, a busca de auxílio em fontes externas à Bíblia, este é um passo importante e muitas vezes necessário, mas só depois dos dois procedimentos anteriores terem sido realizados. Comentaristas não são infalíveis, nem devemos dar aos seus sentimentos individuais o mesmo peso da revelação escrita e canônica. Todavia, visto que muitos destes comentaristas possuem conhecimento que de modo geral o leitor comum não possui (conhecimento das línguas originais da Bíblia, conhecimento das traduções e da gramática da língua vernácula, além de conhecimentos históricos e culturais, etc.), é de se esperar que o comentarista, se ortodoxo e piedoso, esteja em melhores condições de explicar alguns textos e resolver algumas declarações aparentemente contraditórias da Bíblia ou cujo significado pareceu obscuro ao leitor comum. É para isso que são dados mestres à igreja, para consumirem-se como velas, a fim de iluminarem outros, os seus alunos – parafraseando um ditado italiano.
Há detalhes culturais, geográficos, históricos, arqueológicos, literários e exegéticos que bons e experientes comentadores da Bíblia já adquiriram em anos de manuseio das Escrituras e de conhecimentos afins, e que muito podem nos facilitar o trabalho de aprendizagem e ensino das "sagradas letras". Segundo Orlando Boyer, o próprio John Wesley, que tornou-se proficiente em latim, grego, hebraico e francês, além de sua língua materna, chegou a ler aproximadamente mil e duzentos livros, a maioria deles enquanto andava a cavalo pela Inglaterra, e escreveu dezenas de volumes de livros, entre comentários bíblicos, gramáticas, história da igrejas, dentre outros temas (9). Embora intitulasse a si mesmo de "o homem de um só livro", isso significava não que Wesley só lesse a Bíblia ou que só a ela dedicasse grande estima. Significava, antes, que somente a Bíblia tinha autoridade final e suprema e que a ela deviam submeter-se todos os demais livros, nunca jamais podendo a Bíblia estar errada em suas afirmações - Wesley estava comprometido com um pilar da Reforma Protestante, o Sola Scriptura. Sobre a supremacia da Bíblia sobre os escritos humanos, Wesley dizia que
“Todas as partes da mesma são dignas de Deus, e todas juntas constituem um corpo total, no qual não há defeito nem excesso. Ela é a fonte de sabedoria celeste, a qual aqueles que são capazes de prová-la preferem a todos os escritos dos homens, quer sejam sábios, cultos ou santos” (10)
Não obstante, nos escritos de Wesley, vê-se constantes referências a escritores que o precederam, desde os doutores da Patrística aos teólogos da Reforma, que deixaram um vasto legado literário que o pregador inglês não se privava de consultar e usar em seu apoio, ou divergir deles quando julgava necessário. Aliás, foi lendo os comentários de Lutero à carta de Paulo aos Romanos, que ele experimentou uma grande mudança em sua vida, que lhe fez abandonar as dúvidas da salvação que lhe atormentaram até ali (11). Embora seja comum que mesmo homens doutos nas ciências bíblicas errem por vezes em suas considerações do texto sagrado, não se pode desprezá-los por isso, pois como bem ressalta o doutor Russel Shedd,
“Livros cristãos, mesmo sendo falhos, como são seus autores, podem refletir em parte a glória da revelação escriturística. (...) Não é porque Lutero ou João Wesley foram perfeitos, porque não foram, que vale a pena ler suas biografias, mas porque eles confirmam o que Deus quer ensinar-nos nas Escrituras” (12)
E em seguida, o pastor batista adverte-nos sobre a experiência com que poderemos aprender a separar os acertos dos erros nos escritos dos homens comuns:
“O homem experimentado nos caminhos de Deus, ou seja, sábio, peneira o que lê. Ele cuidadosamente separa as pepitas de ouro, as verdades científicas, matemáticas ou psicológicas, do entulho ateu que as rodeia” (13)
Alguém pode argumentar que livros são caros, e por isso não os adquire com frequência. Mas quem poderá calcular o preço da ignorância? Serão os livros mais caros que nossos smartphones, video-games, computadores, aparelhos de TV de última geração e tantos brinquedos tecnológicos que quase sempre promovem distrações, desperdício de tempo e endividamento? Não poucas mulheres gastam alta soma de dinheiro por ano em maquiagens, adornos, bijouterias, e tratamentos estéticos, em desprezo à aquisição de bons livros para seu enriquecimento cultural e espiritual. “Devíeis fazer estas coisas sem omitir aquelas”! Quanto economizaríamos para investir em livros, se pagássemos por uma internet mais barata, se frequentássemos menos as lanchonetes e restaurantes, se cancelássemos nossa conta da Netflix, e se visitássemos mais livrarias do que lojas de roupas ou de eletrônicos? Não é necessário optar por uma vida maltrapilha para formar uma boa biblioteca. Basta colocar prioridades em seu devido lugar, e reconhecer o que é de valor durável. Elegante é quem lê livros!
O apóstolo Paulo também foi um homem de grande intimidade com os livros, embora considerasse as Escrituras como a autoridade suprema, a doutrina pura e sã, e o livro-texto do bom pregador (2Tm 3.15-17; 4.2). Mesmo quando em sua velhice, às portas de seu martírio, pediu a Timóteo: "Quando vieres, traze (...) os livros, principalmente os pergaminhos” (2Tm 4.13). Paulo conhecia não só das Escrituras Sagradas, o Antigo Testamento (At 17.2), mas também, já tinha investigado até mesmo escritos recentes de autores cristãos, como Lucas, seu amigo (1Tm 5.18) (14) – Paulo seria hoje bom consumidor de lançamentos teológicos; conhecia também das leis romanas, de tal modo que podia exigir o cumprimento delas (At 16.37); tinha grande conhecimento linguístico (At 21.40; 22.2); e tinha conhecimento até mesmo de poetas clássicos (At 17.28). Mas claro, Paulo também era um homem de um livro só, pois, como se pode notar em suas treze cartas, Cristo era o tema da pregação e do ensino de Paulo, não leis romanas, não gramáticas, nem discussões filosóficas ou abstrações poéticas. “Cristo, e este crucificado” – era o grande labor kerigmático do apóstolo Paulo (1Co 2.2). Muitos pregadores modernos inverteram a ordem: discussões políticas, éticas, sociológicas, filosóficas e literárias sobrepujaram neles o amor pela exposição bíblica e cristocêntrica. A Bíblia é uma fonte secundária de consulta; Cristo e a cruz estão timidamente escondidos, como meros figurantes, nos seus sermões cheios de retórica filosófica!
CONCLUSÃO
De uma vez por todas, aprendamos com John Wesley: oração antes e durante nossos estudos da Bíblia, pedindo a Deus sabedoria e discernimento, não só para entender o texto, mas para colocá-lo em prática com auxílio do Espírito Santo, aquele que nos ensina todas as coisas e nos faz lembrar os ensinos de Jesus (Jo 14.26). Leiamos a Bíblia com diligência e profundidade – “medita de dia e de noite” (Sl 1.2), não nos conformando com versículos isolados ou capítulos isolados, nem apressando-nos em “dar sentido” aos textos cujo sentido estão lá esperando serem encontrados dentro dos próprios textos. Lembremo-nos de que o construtor sábio foi aquele que não se contentou em construir na superfície, antes, cavou e cavou até encontrar a rocha firme na qual construir sua casa (Lc 6.48). Precisamos cavar mais se quisermos fundamentos sólidos! E jamais desprezemos os bons livros, dicionários, enciclopédias, comentários bíblicos e outros muitos escritos por veteranos na fé e no estudo da Palavra, mestres dados por Deus à igreja, com vistas à nossa edificação espiritual (Ef 4.11). “Examinai tudo, retende o bem” – tenhamos sempre este princípio paulino em mente (1Ts 5.21).
Tiago Rosas __________________________________
REFERÊNCIAS
(1) Justo Gonzalez. História Ilustrada do Cristianismo, vol. 8, p. 175. Vida Nova
(2) Robert Burtner e Robert Chiles (compiladores). Coletânia da teologia de John Wesley, Igreja Metodista, Colégio Episcopal, 1995, p. 18
(3) Charles Finney. Uma vida cheia do Espírito, 3. ed., Betânia, p. 66
(4) Robert Burtner e Robert Chiles. op. cit., p. 22
(5) Robert Burtner e Robert Chiles. op. cit., p. 20
(6) Gordon Fee e Douglas Stuart. Entendes o que lês?: um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica, 3. ed., Vida Nova, p. 35
(7) Gordon Fee e Douglas Stuart. op. cit.
(8) Charles Finney. Op. cit.
(9) Orlando Boyer. Heróis da fé, CPAD, p. 56
(10) Robert Burtner e Robert Chiles. op. cit., p. 18
(11) Justo Gonzalez. Op. cit., p. 177
(12) Russel Shedd. A Bíblia e os livros. Shedd Publicações, pp. 40-1
(13) Russel Shedd. Op. cit., p. 47
(14) No texto de 1Timóteo 5.18, Paulo, falando sobre a remuneração devida dos obreiros que labutavam no ensino da Palavra, escreve: “Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário”. Na primeira parte do versículo, Paulo está citando uma porção do Antigo Testamento (Dt 25.4: Não atarás a boca ao boi que debulha); mas na segunda parte do versículo, os estudiosos são quase unânimes na interpretação de que Paulo estaria citando como Escritura (Palavra de Deus autorizada) uma porção do texto de Lucas, quando em seu Evangelho ele transcreve as palavras de Cristo: “O obreiro é digno de seu salário” (Lucas 10.7).
FONTE: TIAGO ROSAS
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