Dúvidas sobre Salvação e Livre-arbítrio

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Por Tiago Rosas

Se o homem está totalmente depravado, como ele poderia escolher entregar-se à Cristo?

De fato, em seu estado de total depravação, total alienação de Deus, morto em delitos e pecados, o homem não pode escolher entregar-se a Cristo, a não ser que a graça de Deus aja primeiro no coração dele,  capacitando-o a tomar uma boa decisão por Cristo. Sozinho, o homem é incapaz; a graça de Deus agindo nele torna-o capaz.

 

Mas, neste caso, sendo alcançado pela graça e capacitado a tomar uma boa escolha que redundará em vida eterna, como ele poderia não escolher justamente a vida?

 

O arbítrio do homem feito livre pela ação da graça não é garantia de que este homem tomará sempre e inexoravelmente a decisão correta. A graça atuando sobre ele apenas significa que agora ele tem a possibilidade de tomar uma boa decisão, que até então, sem a graça, lhe era impossível. Todavia, mesmo que a dádiva oferecida seja mui preciosa e a negação desta dádiva implique em morte e condenação, ainda assim é possível que o homem tome a decisão contrária àquela que a graça lhe chama. É perfeitamente possível "receber a graça de Deus em vão" (2Co 6.1). Aliás, Adão, homem que trazia desde sua criação o arbítrio livre, não tomou uma boa decisão, mas uma má decisão quando tentado pelo mal, mesmo sob ameaça de morte - o que, considerando inversamente, implicava que estava sob a promessa de viver eternamente se bem utilizasse sua liberdade. A possibilidade de escolha do mal, em detrimento do bem, só deixará de ser real quando alcançarmos a glória celeste, onde teremos o nosso arbítrio plenamente livre não só de nossas próprias inclinações carnais, mas de qualquer tentação externa; glorificação esta pela qual seremos feitos não semelhantes a Adão antes do pecado, mas semelhantes a Cristo sem pecado - "seremos semelhantes a ele" (1Jo 3.3; Conf. 1Co 15.49).

 

A graça de Deus que capacita o homem a crer é então inferior ao livre-arbítrio do homem que foi estabelecido pela graça de Deus?

 

Não. O estabelecimento de graus entre graça de Deus e arbítrio humano é totalmente descabido. A graça de Deus sem dúvidas é maior que o nosso pecado, tanto é que naqueles que consentiram com a ação da graça em seus corações, ela agiu superabundantemente onde abundantemente atuou o pecado. O que se deve avaliar é o "modus operandi" da graça e do arbítrio humano. Veja: poucas pessoas no mundo estão dispostas a sustentar que Deus queria que Adão pecasse e caísse no engodo de satanás. Eu não creio nisso, e estou quase certo que você também não. Entretanto, diremos nós que a vontade de Deus foi inferior à vontade de Adão pelo fato do primeiro homem ter desobedecido a Deus e comido o fruto proibido quando Deus lhe disse explicitamente "não comerás"? A graça de Deus é maior que o arbítrio humano, tanto que o torna possível; entretanto, o modo como a graça opera é brando e suave, não compulsoriamente. "Eis que estou à porta e bato", diz Cristo (Ap 3.20). Isso é graça: convidativa, não invasiva! Ela expressa o caráter amoroso e longânimo de Deus, não sua força onipotente avassaladora! Se a graça de Deus fosse avassaladora e agisse de modo irresistível, então Israel nunca teria caído nas mãos de seus inimigos, nem se privado da salvação de Deus, já que a mão do Senhor nunca esteve encolhida para salvar (Is 59.1). Se a mão de Deus se estendesse para salvar sempre com força onipotente irresistível, então Deus nunca teria dito: "O tempo todo estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde" (Is 65.2; Rm 10.21), nem Jesus jamais teria dito: "Jerusalém, Jerusalém... quantas vezes eu quis acolher-te... e vós não quisestes" (Mt 23.37). Quem dirá por causa disso que os judeus foram maiores que Jesus, que a todos eles quis salvar? Ainda que Deus utilize ameaças, fenômenos naturais e devastações para chamar o pecador para si, a graça não lhe violentará a vontade para que creia irresistivelmente. Prova disso é o próprio Jesus dizendo sobre uma tal Jezabel na igreja de Tiatira: "Dei-lhe tempo para que se arrependesse da sua imoralidade sexual, mas ela não quer se arrepender" (Ap 2.21), e em seguida ele ameaça de doença tal mulher e de morte os seguidores dela - quando a graça dá lugar ao juízo.

 

Neste caso, não é o homem o dono de seu destino, ou seja, não é ele quem tem a última palavra sobre a sua eternidade, relegando à graça divina um papel secundário? Ou seja, não estaria o homem no centro e Deus na periferia da salvação?

 

Absolutamente não. Consideremos os fatos: quem determinou por sua liberdade absoluta e por sua generosidade imensurável conceder ao homem a salvação pela graça com a condição da fé? Quem predeterminou de modo infalível e inalterável que todo aquele que aceitar a livre dádiva da salvação por fé de fato será salvo, e quem recusar esta dádiva em incredulidade de fato será condenado? Quem habilita os pecadores a crer e quem lhes dá o Espírito de vida? Quem garante que no final os fiéis entrarão pelas portas do reino celestial e que os infiéis, mesmo sob grande protesto, serão irresistivelmente lançados no inferno sem quaisquer chances de redenção após o Juízo? Céu e inferno são destinos previamente estabelecidos por Deus. Perdão dos pecados e justificação para vida eterna quem dá é Cristo. Convicção de pecados e arrependimento que dá é o Espírito Santo. Tudo o que o homem tem que fazer é dar livre curso à ação da graça de Deus em seu coração, consentindo em sua vontade com a salvação já providenciada integralmente por Deus. Deus não é feito "mais Deus" pelos que se salvam, nem é feito "menos Deus" pelos que se perdem. "Eu Sou" - diz aquele que é imutável! Quanto aos homens, eles sofrerão a danação eterna se recusarem os termos de Deus, e experimentarão a glória eterna se a estes termos se submeterem. Em vista de tudo isso, o homem se vê tão apequenado, mas tão apequenado, que chega a ser insolente pensar que ele tem algum mérito em sua salvação, que ele se agigantou acima de Deus, ou que ele coloca a última peça no quebra-cabeça de sua salvação. O dono de nosso destino é o Criador, a última palavra sobre nosso destino será dada por Ele ("Vinde, benditos de meu Pai" - aos que creram; "Apartai-vos de mim, malditos" - aos infiéis), assim como a primeira palavra também foi dada por ele ("Vinde a mim vós todos"); e é Ele quem está no centro, não nós. Pois somente quem ocupa o lugar central da nossa salvação é que pode dizer: "Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro" (Is 45.22).

 

FONTE: TIAGO ROSAS

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