Batismo com Fogo

 

 

Por Tiago Rosas 

 

"...vos batizo com água (...), mas (...) ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo" - Mateus 3.11

 

Primeiro, é preciso deixar claro que a interpretação de que o batismo de fogo é para crentes não é algo inédito do Pentecostalismo. Os wesleyanos criam assim (conf. The Tongue of Fire, de William Arthur, 1856). Além dos metodistas, muitos exegetas e comentadores bíblicos no passado e no presente creram assim. Nomes como João Calvino, Jonathan Edwards, Matthew Henry, Henry Alford, G. Campbell Morgan, Ashbel Green Simoton, Donald A. Carson, Leon Morris, I. Howard Marshall, Martyn Lloyd-Jones (que chega a traduzir: "...com Espírito Santo e com poder"), Hernandes Dias Lopes e outros defenderam essa interpretação.

 

Segundo, é preciso dizer que nem todos os pentecostais concordam com a interpretação de que o batismo com fogo seja para crentes, senão um batismo de julgamento para os ímpios. É o que defende teólogos representativos como Stanley Horton, Craig Keener e, aparentemente, Roger Stronstad. Assim, pentecostais podem facilmente discordar neste quesito, mas não precisam se dividir por causa disso. Ninguém precisa abrir uma igreja "Assembleia de Deus do Batismo no Espírito Santo e não com fogo" por aí.

 

Terceiro, é preciso dizer que segundo exegetas como W. E. Vine, o termo grego kai (traduzido pela conjunção “e”) pode ser não só aditivo como explicativo. De tal modo que uma tradução possível (embora o próprio Vine não a defenda) é: “...com o Espírito Santo, isto é, com fogo”. Os exegetas que compreendem o batismo no Espírito e fogo como uma benção para os crentes (ainda que não descartando uma segunda aplicação de juízo para os ímpios), geralmente preferem seguir esta análise.

 

Quarto, é preciso dizer que, a meu ver, João Batista está fazendo comparação entre dois, não três, batismos: batismo em águas, com uma finalidade (declaração pública de arrependimento) X batismo no Espírito/fogo, com outra finalidade (o próprio João não esclarece a função desse batismo, mas Jesus em Lucas-Atos irá definir).

 

Quinto, é preciso dizer que a despeito do contexto imediato (Mt 3.12) parecer sugerir que o “fogo” deste batismo é condenatório, João Batista bem pode estar estabelecendo a seguinte antítese: batismo em fogo (para os que creem) X fogo eterno, geena (para os que não crerem). Tal antítese é recorrente nos escritos proféticos, onde os termos podem ganhar duplo significado dentro de um mesmo contexto. Assim, há ainda, como sugere alguns teólogos, a possibilidade do batismo no fogo ter um duplo aspecto: fogo inflamador/capacitador/purificador para os que crerem X fogo consumidor para os que não crerem.

 

Sexto, é preciso dizer que o batismo de que João Batista fala, é o mesmo derramamento do Espírito prenunciado pelo profeta Joel (2.28-29), e que foi ratificado por Cristo (At 1.4,5) e que teve seu cumprimento em Pentecostes, sobre aqueles 120 irmãos sobre os quais foram vistas “línguas repartidas, como que de fogo” (At 2.3; conf. Isaías que foi tocado por uma “brasa viva, tirada do altar” – Is 6.6).

 

Sétimo, é preciso dizer que um dos símbolos do Espírito Santo na Bíblia é o fogo (p. ex., Ap 4.5), e não raras vezes sua atuação é retratada na figura do fogo que não deve ser extinguido, apagado (1Ts 5.19).

 

Por último, é preciso dizer que não é tão crucial ao Pentecostalismo definir se o fogo deste batismo (Mt 3.11; Lc 3.16) é ou não para os crentes. Pois os pentecostais, ainda que divergindo nesta questão secundária, estão convictos de que o batismo no Espírito Santo é uma experiência primordial aos crentes, distinta da conversão e com função de capacitação para o serviço e maximização da experiência dos maravilhosos dons espirituais. E também estamos convencidos de que na Bíblia, de fato, o fogo não representa apenas destruição, mas também luz, calor e purificação (mesmo que a ação purificadora não esteja numa correlação primária com o batismo no Espírito Santo). A sarça ardia, mas não se consumia (Êx 3).

 

Enfim, este artigo não é para dar uma palavra final e dogmática nesta questão, mas apenas para levar-nos a refletir humilde e cordialmente sobre esta questão, percebendo as muitas vozes que se pronunciam sobre o assunto, sem transformarmos tal questão periférica num campo de guerra desnecessário. Há excelentes expoentes de ambos os lados! Quanto a mim, assim encerro com o coro deste hino da Harpa Cristã:

 

"Desce do alto, bendito fogo,

Desce poder celestial!

Desce do alto, bendito fogo,

Vem, chama pentecostal!"

(hino 122)

 

 

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um subsídio para a Lição 10 do 3° Trimestre de 2017 da Escola Dominical, revista de adultos.

 

FONTE: TIAGO ROSAS 

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