Luteranismo não é Calvinismo

Por Thiago Surian
No caso dos calvinistas, vou tratar do entendimento que eu tinha e o que mais vejo nas conversas com meus amigos calvinistas adeptos da TULIP e páginas e sites da internet mais populares que disseminam o calvinismo. Porém é bom deixar claro que nem todos os calvinistas se encaixam no que eu vou colocar aqui. Aliás, nem todos os calvinistas são adeptos da TULIP. Ela foi feita na Holanda, em Dordrecht (Dort), paralela aos cânones de Dort, distante em tempo e geografia de Calvino (Calvino era francês, viveu e morreu na Suiça, no século 16. A TULIP foi desenvolvida na Holanda, no século 17). Muitas Igrejas Reformadas não abraçam a TULIP e os cânones de Dort, ou as três formas de unidade das igrejas reformadas (Confissão Belga, Catecismo de heidelberg e os Cânones de Dort).
A TULIP é chamada no Brasil de “5 pontos do Calvinismo” e, de forma geral, provavelmente a maioria dos calvinistas aceitam a TULIP como resumo de sua soteriologia, mas nem todos assim concordam pelo mundo. Além de Igrejas reformadas históricas alheias à TULIP, há também entendimentos críticos da TULIP, como os calvinistas amyraldianos e outros. Então eu faço essa ressalva para não dizer que estou generalizando, estou me referindo a talvez o maior grupo de calvinistas no Brasil, o dos adeptos da TULIP, mas não à totalidade do calvinismo. Porém, para fins de simplificação, vou usar sempre “calvinismo” para falar da visão de TULIP do assunto.
Os questionamentos mais frequentes vêm de calvinistas que leem o livro “Nascido Escravo” (título de uma adaptação feita por calvinistas para a obra “Da Vontade Cativa”, de Martinho Lutero) e acreditam que somente o que está neste livro é a teologia de Lutero sobre “Livre-Arbítrio”, sendo que logo na introdução a editora já explica que se trata de uma “versão condensada” do “Da Vontade Cativa”, de Lutero (e Lutero publicou sobre este e vários outros assuntos dezenas de obras entre livros, cartas, sermões, comentários bíblicos, aulas, debates, teses, anotações de alunos dele, etc, não só o “Da Vontade Cativa” e não publicou nenhum “Nascido Escravo”), ou seja, esse livro famoso entre calvinistas não é de fato uma obra de Lutero, mas é uma versão adaptada, uma compilação, muita coisa foi editada e muita coisa ficou de fora. Aconselho os calvinistas e estudiosos interessados no pensamento de Lutero irem às obras de Lutero mesmo (publicadas no Brasil pelas editoras Concórdia e Sinodal, traduzidas direto do latim e do alemão, e com ricas notas de rodapé e introduções contextualizando o leitor historicamente das obras) para pesquisar o pensamento dele.
Quero acreditar que a intenção do autor (Clifford Pond) que condensou a obra “De Servo Arbítrio” de Lutero e lançou sua condensação como o livro “Nascido Escravo”, assim como da editora que lançou o livro colocando Martinho Lutero como autor seja para apresentar Lutero aos seus leitores, isso é comum, muitas obras grandes são “condensadas” e sempre há esse risco do conteúdo original se perder em partes na “condensação”, mas muitos acabaram entendendo errado a Teologia de Lutero e passaram a entender que Lutero acreditava na “dupla predestinação” ou “Expiação Limitada” calvinista. Trechos importantes foram omitidos, como o argumento de Lutero contra a Diatribe de Erasmo respondendo sobre o argumento de Erasmo defendendo o “Livre Arbítrio” diante de Deus, que aparece nas páginas 101 e 102 das Obras Selecionadas de Lutero – Volume 4, citada acima, onde Lutero explica sua visão teológica da vontade oculta e da vontade revelada de Deus, argumentando que a vontade revelada de Deus é a que todos os homens sejam salvos, mas sua vontade oculta confere essa salvação a eleitos. Partes importantes do argumento de Lutero são omitidas, como essa, nas páginas que eu citei dessa obra:
“Porque esse quer que todos os seres humanos sejam salvos, visto que vem a todos com a palavra de salvação; e a falha é da vontade(humana) que não o admite, como diz Mateus 23.37: Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, e tu não o quiseste!”
(LUTHER, Martin. BOUNDAGE OF The WILL, ebook kindle edition, disponível gratuitamente em formato digitalneste link e também em:
LUTERO, Martinho, OBRAS SELECIONADAS DE MARTINHO LUTERO – Volume 4, p. 102. Editora Concórdia. Editora Sinodal.)
Nessa obra “Da Vontade Cativa”, Lutero defende que a vontade humana é caída em coisas espirituais e não pode se voltar para Deus. Lutero defende a eterna eleição como sendo causa da salvação humana, não a vontade humana e nem que “aceitamos” a salvação, mas que ela é um dom de Deus, defendendo assim sua Santa Soberania sobre a salvação e Lutero defende também que a perdição é uma questão soberana de Deus, mas Lutero defende que essa questão da predestinação não pode ser esclarecida pela mente humana, apenas especulada e por isso não se deve fazer doutrinas sobre isso, além do que a bíblia afirma.
“Nós dizemos, como já dissemos antes, que não se deve debater acerca daquela secreta vontade da majestade; e a temeridade humana, que com contínua perversidade sempre investe e atenta contra ela pondo de lado as coisas necessárias, deve ser dissuadida disso e retirada, a fim de que não se ocupe em escrutar aqueles segredos da majestade, a qual não se pode atingir, visto que habita na luz inacessível conforme o testemunho de Paulo (1 Tm 6.16). Que se ocupe, ao contrário, com o DEus encarnado ou (como diz Paulo) com Jesus crucificado, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, porém abscôditos [Cl 2.3]; pois por meio deste ela possui abundantemente o que deve e o que não deve saber .
(Cf. LUTERO, Martinho. Ob, cit., p. 105)
Ou seja, para Lutero, a salvação está em Cristo e sua eleição está escondida em Deus, não cabe a nós fazer doutrinas sobre isso além do que está revelado na Palavra de Deus, seja como Erasmo, negando a predestinação e afirmando que a vontade humana coopera com a salvação, seja do lado determinista, que coloca na conta de Deus a perdição do homem, como se Ele determinasse isso numa “dupla predestinação”. Deus condena soberanamente as pessoas, mas seu desejo é que todos sejam salvos e esse paradoxo bíblico deve ser preservado, não deve ser desconstruído pela razão humana.
Quero acreditar que a omissão de trechos assim no “Nascido Escravo” não foi intencional para dar um entendimento errado da teologia de Lutero e fazê-lo parecer um “calvinista”, mas como isso criou algum mal entendido entre os calvinistas, que chegam a acusar os luteranos de não seguirem o “Luteranismo original”, sem entender o pensamento de Lutero, nem o dos luteranos de fato, deixo aqui o conselho que você adquira o Volume 4 das Obras Selecionadas de Lutero pelas editoras Concórdia e Sinodal, assim você vai ter acesso ao trabalho original de Lutero e poderá tirar conclusões mais apuradas, ao invés de ficar com o “Nascido Escravo”. Eu não sei o que houve na confecção dessa obra, não estou concluindo nada sobre ela, apenas te falando que existe uma obra original e uma editada, então te aconselho a ficar com a original para entender melhor a teologia de Lutero e ler outras coisas dele também para tirar suas conclusões.
Outro frequente argumento é que Lutero escreveu a favor de algo parecido com a expiação limitada. Lutero fez uma declaração bem complicada nesse sentido. Ele disse assim, em suas preleções sobre o livro de Romanos:
O segundo [argumento] é que “Deus deseja que todos os homens sejam salvos” [1 Tm 2.4] e que entregou seu Filho em favor de nós seres humanos, os quais ele criou por causa da vida eterna. E, de maneira semelhante: todas as coisas existem por causa do ser humano, mas ele próprio existe por causa de Deus, de sorte que nele possa deleitar-se, etc. Esses, como também outros argumentos são tão fracos quanto o primeiro. Essas sentenças só podem ser compreendidas com referência aos eleitos, como diz o apóstolo, em 2 Tm [2.10]: “Tudo por causa dos eleitos”. Pois, num sentido absoluto, Cristo não morreu por todos, visto que ele diz: “Esse é o sangue que é derramado por vós” e “por muitos” – ele não diz: por todos – “para a remissão dos pecados” [Mc 14.24; Mt 26.28; Lc 22.20].
…
O quarto [argumento]: por que então ele ordena fazer aquilo que não quer que seja feito por aquelas pessoas? E o que é mais grave: ele endurece a vontade, de sorte que as pessoas preferem agir contrariamente à lei. Portanto, o motivo das pessoas pecarem e serem condenadas, está em Deus. Este é o argumento mais forte e, também, o principal. E é, principalmente, a ele que o apóstolo se refere quando diz que Deus quer que assim seja e que, ao querê-lo, ele não é injusto, pois todas as coisas são suas, assim como a argila é do oleiro. Portanto, ele concede mandamentos a fim de que os eleitos os cumpram, mas para que os réprobos neles se enredem, para revelar a sua ira e sua misericórdia.
– Lutero, Martinho. in: Obras Selecionadas de Martinho Lutero volume 8, in: A epístola de São Paulo aos Romanos. São Leopoldo: Editora Sinodal. Ebook Kindle edition.
Isso parece resolver a questão, não é mesmo? Ponto final. Lutero era calvinista. Provavelmente se converteu lendo os cânones de Dort e abraçou a TULIP (que viria ao mundo só mais de 1 século depois dessas declarações)!!
Não. Essas declarações foram feitas em 1515, antes de publicar suas 95 teses em 1517, quando Lutero ainda estava sob o pensamento romano da Teologia da Glória (que certos calvinistas também adotam hoje em dia), de dar respostas lógicas aquilo que está oculto em Deus, como a eleição eterna dos filhos de Deus. Lutero ainda mantinha traços do pensamento medieval e escolástico de um Deus punitivo e que tem prazer não em perdoar, mas em punir o pecador, apesar de já estar avançando para o que mais tarde compreenderia como a justiça de Deus ser em Cristo para perdão, não pelas obras para nos punir.
O teólogo Ricardo Wieth, tradutor destas preleções de Lutero do original para o Português nas Obras Selecionadas, traz luz a esse período de Lutero, quando fez as preleções sobre romanos, registrada por seus alunos:
“Na preleção sobre Romanos, Lutero já demonstra um bom avanço na direção desta compreensão de “justiça de Deus”, embora ainda reproduza, consideravelmente, o vocabulário e as formas de ensino de seus mestres próximos e distantes”.
– Wieth, Ricardo W. Obras Selecionadas de Martinho Lutero volume 8, in: A epístola de São Paulo aos Romanos – Introdução. São Leopoldo: Editora Sinodal. Ebook Kindle edition.
Mesmo em sua obra “Da Vontade Cativa” ainda há declarações polêmicas interpretadas por alguns como determinismo ou dupla predestinação da teologia da glória, o que Lutero já combatia na época, pois ele já mostrava contrário à especulação sobre a predestinação, como se vê no debate de Heidelberg que ele participou (Obras Selecionadas, volume 1), e em Marburgo, em seu acalorado debate com Zwinglio (cuja ata completa se encontra traduzida para o português na obra “Isto É Meu Corpo”, do autor e teólogo luterano alemão Hermann Sasse, lançada no Brasil pela editora Concórdia e à venda no site deles). Lutero foi evoluindo seu pensamento até o que ficou registrado em seus catecismos e suas outras obras posteriores.
O próprio Lutero, 30 anos depois de suas preleções sobre Romanos, comenta sua mudança de visão do que implicava em sua opinião de dupla predestinação e um Deus que ordena até o pecado para a destruição do pecador, para um Deus de amor que já puniu os nossos pecados em Cristo e nos aceita pela fé nEle:
“Eu fora tomado por uma extraordinária paixão em conhecer a Paulo na Epístola aos Romanos. Fazia-me tropeçar não a firmeza de coração, mas uma única palavra no primeiro capítulo: ‘A justiça de Deus é nele revelada’ (Rm 1.17). Isso porque eu odiava esta expressão ‘justiça de Deus’, pois o uso e o costume de todos os professores me havia ensinado a entendê-la filosoficamente como justiça formal ou ativa (como a chamam), segundo a qual Deus é justo e castiga os pecadores e injustos.
Eu não amava o Deus justo, que pune os pecadores; ao contrário, eu o odiava. Mesmo quando, como monge, eu vivia de forma irrepreensível, perante Deus, eu me sentia pecador, e minha consciência me torturava muito. Não ousava ter a esperança de que pudesse conciliar a Deus através de minha satisfação. E mesmo que não me indignasse, blasfemando em silêncio contra Deus, eu resmungava violentamente contra ele. Como se não bastasse que os míseros pecadores, perdidos para toda a eternidade por causa do pecado original, estivessem oprimidos por toda sorte de infelicidade através da lei do decálogo, deveria Deus, ainda, amontoar aflição sobre aflição, através do evangelho, e ameaçá-los com sua justiça e sua ira também através do evangelho? Assim, eu andava furioso e de consciência confusa. Não obstante, teimava impertinentemente em bater à porta desta passagem; desejava com ardor saber o que Paulo queria.
Aí Deus teve pena de mim. Dia e noite eu andava meditativo, até que, por fim, observei a relação entre as palavras: ‘A justiça de Deus é nele revelada, como está escrito: o justo vive por fé.’ Aí passei a compreender a justiça de Deus como sendo uma justiça pela qual o justo vive através da dádiva de Deus, ou seja, da fé. Comecei a entender que o sentido é o seguinte: Através do evangelho é revelada a justiça de Deus, isto é, a passiva, através da qual o Deus misericordioso nos justifica pela fé, como está escrito: ‘O justo vive por fé. Então me senti como que renascido, e entrei pelos portões abertos do próprio paraíso.
Aí toda a Escritura me mostrou uma face completamente diferente. Fui passando em revista a Escritura, na medida em que a conhecia de memória, e também em outras palavras encontrei as coisas de forma análoga: ‘Obra de Deus’ significa a obra que Deus opera em nós; ‘virtude de Deus’ – pela qual ele nos faz poderosos; ‘sabedoria de Deus’ – pela qual ele nos torna sábios. A mesma coisa vale para ‘força de Deus’, ‘salvação de Deus’, ‘glória de Deus’. Assim como antes eu havia odiado violentamente a frase ‘justiça de Deus’, com igual intensidade de amor eu agora a estimava como a mais querida. Assim esta passagem de Paulo de fato foi para mim a porta do paraíso”
– Luther, Martin. WA 54, p. 186, apud Obras Selecionadas de Martinho Lutero volume 8, in: A epístola de São Paulo aos Romanos – Introdução. São Leopoldo: Editora Sinodal. Ebook Kindle edition.
Lutero relata sua “conversão” e mudança de perspectiva do que entendia no trecho acima no livro de Romanos, e o que passou a entender anos depois. E assim a Teologia Luterana admitiu essa visão posterior de Lutero, aceitando a Teologia da Cruz com seus paradoxos e “loucuras” para o homem natural, rejeitando a visão medieval de um Deus que tem prazer em punir ao invés de salvar.
No luteranismo confessional, tudo converge no Livro de Concórdia:
Livro de Concórdia (gratuito em formato digital, mas só em inglês) e Livro de Concórdia em português (em papel, para comprar)
As citações aqui utilizadas do Livro de Concórdia são dessa versão em português
Caso haja curiosidade e pouco tempo para ler tanta coisa, indico o “Sumário da Doutrina Cristã”, que resume as crenças expressas no Livro de Concórdia. Para comprar em português:
http://www.editoraconcordia.com.br/produtos/produto.php?id=1736
Para comprar para o kindle, mas só em inglês:
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O texto que acabou de ler é uma parte do artigo de Thiago Surian, intitulado Diferenças entre Luteranos e Evangélicos na Predestinação.
Fonte: Thiago Surian
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