O Dom de Profecia é Pregação?

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Por Tiago Rosas

 

"E, vendando-lhe os olhos, feriam-no no rosto, e perguntavam-lhe, dizendo: Profetiza, quem é que te feriu?" - Lucas 22.64

Sinceramente, não sei como houve e como há teólogos - inclusive continuístas! - que defendem o dom de profecia como sendo capacitação divina para pregação das Escrituras. Na carta aos Romanos, Paulo distingue muito bem o dom de ensinar (12.7) e o dom de profetizar (12.6); na carta aos Efésios (4.11) ele também distinguiu os "profetas" dos "mestres". Embora seja perfeitamente possível ao que tem o dom de profecia também ser um bom ensinador, fato é que uma coisa não se confunde com a outra. Para a pregação/ensino [1] há os fatores preparo e "iluminação"; para a profecia há necessariamente os fatores espontaneidade e "revelação". Como dizia João Calvino, "a profecia é serva da revelação", isto é, o conhecimento sobre necessidades específicas que "só se pode obter por meio da revelação e da inspiração especial de Deus" [2]. Não é o conhecimento que emana do estudo da Bíblia, mas de uma revelação especial advinda do Espírito Santo. Também não é revelação canônica, que tenha em si a pretensão de se sobrepor, alterar ou descartar as sagradas Escrituras. Na verdade, nem toda revelação de Deus é revelação canônica (se fosse, então Paulo teria que ter escrito as revelações que ele recebeu no terceiro céu - 2Co 12.1-4).

A revelação [3] como fator preponderante na profecia está evidente nas palavras do apóstolo Paulo, quando falando da ordem necessária no uso do dom de profecia na igreja, instruiu: "falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro" (1Co 14.29,30). Veja: se a outro FOR REVELADA ALGUMA COISA... É tão súbita a revelação, que foi dada não em casa, durante o estudo, mas na igreja, enquanto o crente estava sentado (e com isso, óbvio, eu não quero negar a possibilidade da revelação ser dada em casa, mas apenas ressaltar o caráter espontâneo e repentino da elocução espiritual). É tão inconfundível o caráter revelacional da profecia que Paulo ainda diz que por ela "os segredos do seu coração ficam manifestos" (1Co 14.25). A exposição fiel do texto bíblico não necessariamente torna manifestos os segredos do coração do pecador; mas pela profecia, que traz revelações do que estava em segredo, o que estava sob trevas é trazido à luz e exposto publicamente!

No mais, aquele Paulo que era antipático à ideia das mulheres pregarem/ensinarem em seu tempo [4], certamente não falaria com aprovação sobre mulheres profetizando na igreja como fez em 1Coríntios 11.5, não diria, sem fazer qualquer restrição quanto às mulheres, para que os crentes de Corinto buscassem com zelo o dom de profecia (1Co 14.1), nem diria com honestidade que gostaria que todos profetizassem (1Co 14.5) ou que "todos podereis profetizar" (1Co 14.31) se profecia e ensino fosse a mesma coisa. Aliás, nem mesmo que Paulo quisesse ele poderia menosprezar mulheres que usavam o dom de profecia na igreja, pois a promessa do próprio Deus, quebrando estas barreiras sexistas, era: "filhos e filhas profetizarão" (Joel 2.28; e também servos e servas - At 2.18). Na teologia paulina só faz sentido "filhas", "servas" e "mulheres" profetizarem, se profecia não for pregação ou ensino!

Wayne Grudem nos apresenta um conceito claro e objetivo do que é o dom de profecia: "dizer aquilo que Deus espontaneamente trouxe à mente". E ainda explica: "a distinção entre ensino e profecia é bastante clara. Se uma mensagem é resultado de uma reflexão consciente sobre o texto das Escrituras, incluindo uma interpretação do texto e aplicação para a vida, então (nos termos do NT) se trata de ensino. Mas, se uma mensagem é resultado de algo que Deus põe na mente repentinamente, então se trata de uma profecia" [5].

Agora, por que o versículo de Lucas 22.64 no início desse post? É para mostrar que até mesmo os incrédulos tinham um correto conceito de profecia, conquanto não tivessem uma percepção correta de quem era o Jesus a quem eles agrediam. Veja que o texto diz que os homens que prenderam Jesus, vendaram os seus olhos, em seguida lhe bateram no rosto e tentaram-lhe: "Profetiza, quem é que te feriu?". É óbvio que aqueles homens não estavam pedindo pra Jesus ir buscar um rolo do Antigo Testamento, abrir, ler e ensinar para eles. Eles queriam que Jesus revelasse (ou adivinhasse), de olhos vendados, quem estava batendo nele. É incrível como até mesmo incrédulos discerniram o sentido de "profecia", enquanto teólogos protestantes ainda quebram a cabeça e distorcem o significado deste dom!

Tiago Rosas
"Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar" (1C 14.1)

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Referências
[1] Embora os nossos mestres da Homilética nos ensinem que há especificidades na pregação e no ensino, tomo ambas as palavras como sinônimas neste post. Além do que não creio que o Novo Testamento prescreva uma distinção entre pregar e ensinar.
[2] João Calvino. 1Coríntios, 2° ed, Parakletos, p. 417.
[3] É a revelação, e não a predição, que constitui o caráter essencial da profecia. Nem toda profecia traz uma predição de eventos (já que ela é dada também para "edificação, exortação e consolação" - 1Co 14.3), mas toda profecia deve ser fruto de uma revelação divina trazida pelo Espírito ao coração do crente.
[4] Em 1Co 14.34 Paulo diz: "As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar..."; Em 1Tm 2.12 ele diz: "Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio". Há questões exegéticas e culturais em torno dos escritos paulinos que estão além dos propósitos deste post. Fato é que se profecia fosse pregação ou ensino, então Paulo certamente não teria tolerado mulheres profetizando na igreja. Neste caso, ele certamente teria reprovado as quatro filhas virgens do evangelista Felipe, que "profetizavam" (At 21.9).
[5] Wayne Grudem. Novo Dicionário de Teologia Bíblica (Alexander & Rosner, eds.), Vida, pp. 1056,59.

 

FONTE: TIAGO ROSAS 

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