Chamar Deus de "Você"

Por Tiago Rosas
A recente pregação de um jovem pastor reacendeu uma discussão nas redes sociais: é correto chamar Deus/Jesus/Espírito Santo de “você”? Como me foi pedido por alguns irmãos, darei minha opinião sobre o assunto.
Antecipo que não é de hoje que se vê pregadores reprovando esse tratamento mais íntimo para com Deus. A.W. Tozer (1897-1963), pregador e profícuo escritor norte-americano, já fazia há mais 50 anos a sua apreciação sobre este assunto: “A comunhão com Deus é uma coisa, e a familiaridade com ele outra absolutamente diversa. Não gosto nem mesmo (...) de ouvir Deus chamado de ‘Você’. ‘Você’ é uma expressão coloquial. Posso chamar um homem de ‘você’, mas devo chamar Deus de ‘Senhor’, ‘Tu’ e ‘Ti’. Sei que são palavras antigas, mas sei também que existem algumas coisas tão preciosas que não devemos abandoná-las e acho que ao falarmos com Deus devemos usar os pronomes puros e respeitosos” [O melhor de A.W.Tozer, Mundo Cristão].
Aprecio o zelo e a piedade do irmão Tozer, bem como de todos os nossos antigos pastores que nos deixaram um bom legado de decência nas coisas espirituais. Todavia, devo dizer que devemos também zelar para não propagarmos dogmas que não foram estabelecidos pela Bíblia, ainda que tenham aparência de piedade. Santificar o nome de Deus é uma coisa (Ex 20.7; Mt 6.9), outra coisa é santificar os pronomes de tratamento.
Uma das primeiras coisas que aprendi ainda no primeiro semestre do curso de Letras há dez anos foi a etimologia da palavra “você”. Com a massificação da informação pela internet, porém, qualquer pessoa pode verificar que “você” é uma forma contraída do pronome de tratamento respeitoso muito utilizado nos países de língua portuguesa até o século 19, para se referir à figuras nobres e autoridades: “vossa mercê” (que evoluiu para vossemecê, vosmecê, vosse, e, finalmente, você).
A rigor, nem mesmo um príncipe tinha liberdade de dirigir-se publicamente ao rei como “meu pai” ou “papai”, mas, como os súditos do reino, deveria tratá-lo como “Vossa Majestade”, que é o pronome de tratamento para reis ou rainhas. Bem, todos estão de acordo que Jesus Cristo é o Rei dos reis, mas nem por isso vê-se pessoas exigindo que chamemos Jesus de “Vossa Majestade”, "Vossa Alteza" ou coisa do tipo. Dizem que Jonh Hyde, sob cujas orações mais de 100 mil indianos foram levados a Cristo, parecia trazer o céu à terra quando em meio a ofegante oração, ele exclamava apenas assim: “Oh! Pai...”, ou "Jesus!... Jesus!... Jesus!...".
No mais, o pronome pessoal “tu” também é de modo geral “inadequado” na nossa cultura quando queremos nos dirigir às pessoas mais velhas ou aos nossos superiores (ninguém chama um juiz de “tu”, e há quem reclame se nos dirigirmos às pessoas mais velhas usando este pronome pessoal). Mas é justamente este “tu” o pronome mais usado pelos santos do Senhor para dirigirem-se a Deus em toda Bíblia! E ninguém reprova isso. Confira, por exemplo: Sl 5.4; 16.11; At 1.24; At 4.24,25; Ap 5.9,10.
Portanto, minha conclusão sobre este assunto é: apesar de coloquial (isto é, comum, informal), o pronome de tratamento “você” não é irreverente ou depreciativo, e não deve ser visto como um trato desrespeitoso à Deus, mas de afeto e proximidade. Se alguém quer estar em paz com sua consciência preferindo evitar este uso, que tenha isso consigo em seu coração, mas não queira ter domínio sobre a fé alheia (2Co 1.24), impondo dogmas que a Bíblia não impõe. A preferência pelo uso do “Tu” no português brasileiro, para dirigir-se a Deus, é apenas uma preferência mais conservadora. Só.
FONTE: TIAGO ROSAS
#BiblifiqueSe
Eu acho que a evolução do pronome ja sugere um desleixo no tratamento.Tanto que veio sendo abreviado no passar dos anos.
ResponderExcluirPerfeito em suas palavras!
ResponderExcluirAcho interessante relembrar o fato relatado em Mateus 16:
Pedro fala, ao ser indagado sobre quem ele pensava ser Jesus, disse Pedro: Tu (você) és o Cristo, Filho de Deus.
Jesus responde que foi o Espírito Santo que o revelou.
Na continuidade do texto, Jesus fala o que posteriormente iria o acontecer (sofrimento, morte e ressurreição). Pedro repreende Jesus dizendo: SENHOR (Tratamento formalíssimo), tem compaixão de ti, de modo nenhum de acontecerá isso. Jesus repreende Satanás, que havia acabado de falar na boca de Pedro.
Pedro foi usado pelo Espírito Santo quando chamou Jesus de Tu (Você).
Pedro foi usado por Satanás quando chamou Jesus de SENHOR.
“O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração”.
1 Samuel 16:7
Entendo que este assunto tornou-se muito polêmico, devido a uma grande crise de “submissão a autoridades” que vivemos em nossos dias…
ResponderExcluirLendo o texto acima, concordo totalmente com a explicação do autor sobre pronomes de tratamento. Nós podemos chamar qualquer pessoa de você, por maior que seja sua autoridade terrena. Um presidente, um rei, um papa, um ministro, um pastor, todos eles são autoridades humanas e em algum momento nos assemelhamos a eles. São humanos, com as mesmas fraquezas e limitações que nós…
No caso de Deus (Jesus Cristo) a situação é totalmente diferente. Não cabe colocarmos o pronome “você” naquele que é “Senhor”. Ele está infinitamente acima de tudo e de todos. Quanto mais próximo chegamos dele, maior é nossa intimidade com Ele e mais para o alto temos que olhar… Você é capaz de compreender o “porquê” os Serafins da visão do Profeta Isaias, que voavam ao redor do trono, cobriam os seus rostos e os seus pés???
Chamar Jesus Cristo de você é tentar humanizar aquele que foi colocado por Deus acima de tudo e de todos, justamente por isso ele recebeu do próprio Deus o pronome de Senhor!!!
“Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é “Senhor”, para glória de Deus Pai.”
(Filipenses 2:9-11)
Concordo plenamente com o José R. Pontes. No mínimo, temos um idioma deficiente onde nao se encontra palavra correta para tratar pessoas santissimas.
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