O Dom de Línguas (Por Tiago Rosas)

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Estudo sobre os capítulos 12, 13 e 14 da primeira carta aos Coríntios.
Confira com sua Bíblia em mãos e biblifique-se!
1. Nota exegética
- No texto grego não aparecem os termos “estranha” de “língua estranha” (1Co 14.2ss, ARC), nem “bem” de “ora bem” (1Co 14.14, ARC). Aliás, atente para isto: todas as vezes que você ler na Bíblia uma palavra em itálico (letras mais finas e inclinadas para a direita), saiba que esta palavra foi acrescentada pelo tradutor para ajudar na compreensão do texto, mas que não existe nos textos originais. Na dúvida, leia o mesmo texto bíblico em outras versões como ARA, NVI, ALM21, NVT e outras.
- A promessa de falarmos em “novas línguas” foi feita pelo próprio Senhor Jesus em Marcos 16.17. Entretanto, muitos eruditos na Bíblia afirmam que os versículos 9-20 do último capítulo de Marcos não eram parte integrante do texto original, constituindo em verdade um acréscimo feito provavelmente no segundo século, quando os apóstolos e autores bíblicos originais já haviam morrido. Bem, se assim for, as palavras atribuídas a Jesus podem continuar sendo dele de fato, preservadas através de uma tradição cristã oral e acrescentadas ao final do evangelho de Marcos. Mas ainda que não seja assim, permanece indiscutível, à luz desse texto, que os cristãos, mesmo após a morte dos apóstolos, continuavam crendo nas experiências com os dons espirituais, inclusive o falar em línguas. Se não fora assim, por que fariam um acréscimo ao texto sagrado falando das línguas como uma promessa de Cristo aos que cressem?!
2. Línguas e batismo no Espírito Santo
- As línguas podem funcionar como sinal do batismo no Espírito Santo (At 2.4) e/ou como um dom permanente – “variedade de línguas” (12.10). A pessoa batizada no Espírito Santo não necessariamente prosseguirá falando em línguas, se as tiver recebido apenas como um sinal do derramamento do Espírito que ela experimentou. “Falam todos em línguas?”, foi a pergunta retórica de Paulo, cuja resposta é “não” (12.29).
- Não se pode afirmar dogmaticamente o porquê das línguas serem a evidência no batismo no Espírito Santo (At 2.4; 10.46,47; 19.6). Entretanto, com certa razoabilidade pode-se propor uma tese: visto que o batismo no Espírito Santo é o empoderamento do crente para o serviço do Senhor, especialmente com vistas à propagação destemida e poderosa do evangelho de Cristo em todo mundo (At 1.8), cremos que o batismo é uma manifestação do Espírito que aponta continuamente para o caráter multicultural, multiétnico e suprarracial do evangelho de Jesus e da missão da Igreja. Que outro fenômeno espiritual poderia ser mais adequado para evidenciar a missão transcultural da igreja do que o fenômeno das línguas? As línguas sinalizam o avanço da Igreja desde Jerusalém, passando por toda Judéia, alcançando Samaria e “até os confins da terra”! Aliás, não nos esqueçamos que a promessa do Pai era: “derramarei o meu Espírito sobre toda carne” (Jl 2.28), isto é, sobre todos os povos. As línguas são o fenômeno inusitado que sinaliza para a unidade do Espírito na diversidade dos povos!
3. Natureza das línguas
- As línguas são “estranhas” no sentido de serem sempre uma linguagem desconhecida para quem fala, ou seja, um idioma não estudado nem aprendido; mas podem não ser estranhas para quem ouve, já que pode tratar-se de um idioma humano conhecido. Veja-se o caso dos discípulos falando em línguas no dia de Pentecostes e sendo compreendidos pelas multidões presentes (At 2.4-11). Alguns estudiosos entendem que as línguas de Atos eram idiomas humanos, enquanto que as línguas de Corinto eram idiomas espirituais, em virtude de Paulo haver dito que “em espírito fala de mistérios” (1Co 14.2). Seja como for, creio estarem presentes na igreja hoje, já que nada aponta em direção contrária: tanto línguas humanas como línguas celestiais.
- As línguas podem ser humanas ou celestiais (ou angelicais, como alguns preferem dizer, baseado em 1Co 13.1 e em Hb 6.5, onde se fala dos “poderes – gr. dunamis – da era vindoura”), mas nunca serão balbucios sem sentido (14.7-10) e que não sejam uma linguagem real. Se humanas, podem ser idiomas falados no passado ou na contemporaneidade; podem ser idiomas conhecidos ou dialetos desconhecidos. São mais de 5 mil idiomas falados no mundo hoje! O Espírito Santo pode a seu bel prazer conceder qualquer uma dessas línguas ou várias delas ao mesmo crente. Biblicamente falando, não há qualquer restrição, pois é o Espírito que “opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer” (12.11). Talvez seja trabalho inútil querer identificar a língua falada por um crente gravando-a, transcrevendo-a e pesquisando no “Google Tradutor”. Seria mais viável, ao invés deste trabalho técnico, pedir a Deus discernimento espiritual e interpretação!
4. Uso das línguas no culto e nas devoções particulares
- As línguas não são para pregação do Evangelho, mas para adoração a Deus, inclusive através da oração em línguas (14.14) ou do cântico em línguas (14.15; Conf. Ef 5.19, onde Paulo fala de “cânticos espirituais” numa provável referência à cânticos não ensaiados, entoados sob momentos de súbita inspiração divina, incluindo cânticos em outras línguas). “Quem fala em línguas fala a Deus e não aos homens”, dizia Paulo (14.2). Em Atos 2, os crentes batizados no Espírito Santo não pregavam em outras línguas, mas falavam das grandezas de Deus (At 2.11), em expressões de júbilo e exaltação. Imagina como seria difícil entender tantos pregadores ao mesmo tempo, pelo menos uns 120? A pregação propriamente foi feita apenas por Pedro, quando se pôs de pé (At 2.14-36).
- É possível que extraordinariamente uma mensagem seja transmitida à igreja através das línguas. Neste caso, porém, deverão sempre ser acompanhadas de interpretação e limitadas a duas ou três pessoas falando ordenadamente (14.27). A menos, ressalte-se, numa possibilidade remota (não trabalhada por Paulo), mas não impossível, em que a igreja que ouve conheça as línguas que estão sendo faladas (imagine essa situação: um missionário é visitante de um culto numa comunidade cuja língua ele não conhece, mas de repente, no meio do culto o Espírito Santo concede-lhe trazer uma mensagem à igreja justamente no idioma comum falado por todos ali presentes. Dispensa-se a interpretação. “Foi o Senhor quem fez isso, e é maravilhoso aos nossos olhos” – Sl 118.23).
- Paulo não proibiu que se fale em línguas no culto público, apenas ensinou que se for para falar em línguas à igreja (ou seja, transmitindo uma mensagem à congregação), então que seja mediante interpretação e limitado a no máximo três pessoas; se não houver intérprete deve o crente ficar em silêncio, mas não em silêncio absoluto, pois a instrução é “falando consigo e Deus” (14.28). Ou seja, mesmo na ausência de intérprete, o crente pode continuar falando em línguas, desde que não cause prejuízos ao culto coletivo, que deve ser inteligível e com ordem. Por exemplo: não é errado falar em línguas durante o momento de oração no culto, quando cada um está fazendo sua oração a Deus, ou cantar ao Senhor em línguas quando toda a congregação está oferecendo louvores ao Senhor. Apenas tenha-se em mente que sempre que as palavras forem dirigidas a alguém ou à igreja, devem as línguas serem acompanhadas de interpretação, pois doutro modo como poderão os que ouvem dizer “Amém” em concordância ao que está sendo dito? (14.16)
- “O que fala em línguas edifica-se a si mesmo” (14.4) ainda que o seu “entendimento fica sem fruto” (14.14). Como tal edificação é possível à parte da compreensão intelectual? É que o homem não é só massa encefálica, e a nossa vida não se resume ao cérebro ou intelecto. Como cremos na tripartição humana - espírito, alma e corpo - é preciso entender que as obras espirituais alcançam todo o ser. O espírito do homem é edificado enquanto fala em línguas com Deus por meio de uma linguagem que não é irracional nem racionalista, mas suprarracional! Isto é, a comunicação do espírito do homem com o Espírito de Deus se dá num plano que está acima da inteligência, acima do raciocínio, acima daquilo que nossa mente possa captar! Coisas maravilhosas que não podemos compreender totalmente acontecem quando adoramos a Deus verdadeiramente!
5. Línguas, interpretação, profecia e amor
- O crente que recebeu de Deus o dom de línguas tem o dever de buscar o dom de interpretação (14.13). Não é o dever de pesquisar na internet a tradução da língua, nem de fazer curso de idiomas para entender as línguas que fala, mas dever de orar pedindo o dom de interpretação! Deve orar, porque está lidando com coisas espirituais, que demandam fé e dependem de uma ação do Espírito (“ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus” - 1Co 2.11); deve pedir a interpretação, porque assim poderá otimizar a sua experiência com o dom, e, especialmente, trazer edificação à toda a igreja, não apenas a si mesmo. Aliás, aqui aprendemos algo importante: o crente pode falar e interpretar as línguas simultaneamente, ou pode ser que haja outro que interprete (14.27).
- Tanto as línguas como a profecia são importantes e dependem da manifestação e/ou revelação do Espírito (12.4-11). Entretanto, naturalmente a profecia tem proeminência sobre as línguas em virtude de seu caráter inteligível, o que é mais propício à coletividade (14.1,5,24,25). Neste sentido, a profecia é um “dom melhor” para a igreja reunida, já que ao ouvi-la todos podem entende-la e assim serem exortados, edificados e consolados. Entretanto, veja esta outra realidade: no culto devocional que cada crente em particular oferece a Deus no seu lar, o dom de línguas torna-se ali um “dom melhor” que o de profecia, já que o crente não profetizará ao vazio, a si mesmo ou a Deus (não existe profecia para Deus!); mas poderá muito edificar-se a si mesmo enquanto ora ou canta ao Senhor em outras línguas! O próprio apóstolo Paulo costumava falar abundantemente em outras línguas, quando não na igreja (14.18-19).
- O amor não é o maior dos dons no sentido em que falamos de dons espirituais (os carismas do Espírito). O amor é fruto do Espírito (Gl 5.22), não dom espiritual. Ao falar do “caminho ainda mais excelente” (1Co 12.31) e logo em seguida ressaltar o valor do amor (cap. 13), Paulo não está sugerindo que menosprezemos os dons e busquemos apenas o amor, antes está estabelecendo o amor como o caminho ideal – mais excelente! – para a genuína experiência dos dons. Ou seja, não é “mais amor e menos dons” ou “só amor, fora os dons!”, mas “em amor, os dons”! Devemos buscar os dons, mas com zelo e em amor (13.13; 14.1). O amor é o regulador dos dons. Dons sem amor é ostentação, disputa e confusão. Dons com amor é edificação, exortação e consolação (12.7; 14.3).
6. O abuso do dom de línguas
- É um abuso e absurdo que pregadores e cantores, no afã de parecerem muito espirituais, gastem excessivo tempo falando em outras línguas no microfone, enquanto se dirigem à igreja. Este é o mau uso do dom de línguas que Paulo combateu em Corinto: a ostentação egoísta do dom para autogratificação, em menosprezo às demais pessoas presentes no culto que nada entendem do que está sendo dito, inclusive descrentes que podem julgar estarem todos loucos! (14.9-11, 23). As línguas não são para ostentação no culto ou para aferição de espiritualidade e de unção, nem devem ser usadas desregradamente sob o pretexto de estar adorando ao Senhor. A regra bíblica é clara: “se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus” (1Co 14.27,28).
- Às vezes, o mau uso das línguas não é uma questão de ostentação e soberba, mas de pura ignorância mesmo. Neste caso, cabe ao pastor da igreja não querer que os irmãos sejam ignorantes (12.1) e assumir o dever que lhe cabe: ensinar o povo corretamente, não para reprimir os dons (14.39), mas para dar-lhes o devido e adequado uso na igreja do Senhor, e para que “tudo se faça com decência e ordem” (14.40).
7. Cessação do dom de línguas
- Um culto genuinamente neotestamentário, que segue o modelo da igreja primitiva, é o culto no qual os crentes se ajuntam e “cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação” (14.26), fazendo-se tudo para edificação. Isso não significa que em todas as reuniões da igreja todos estes elementos devam estar presentes, mas que são permitidos e que são parte do culto cristão, avivado pelo Espírito. Portanto, deve haver a expectativa e liberdade para que essas manifestações ocorram, ao invés de se propor a cessação de algum desses elementos, seja o louvor (“salmos”), seja o ensino (“doutrina”) ou sejam manifestações carismáticas como revelação, línguas e interpretação!
- As línguas, como todos os demais dons do Espírito, um dia cessarão (1Co 13.8), mas este dia nem foi a morte dos apóstolos, nem foi o dia em que a Igreja fechou o cânon sagrado, nem é também o dia de hoje. O dia da cessação dos dons é o dia “quando vier o que é perfeito” e que “o que é em parte seja aniquilado” (13.10); é o dia em que “veremos face a face”, o dia em que não mais conheceremos superficialmente “em parte”, mas “conhecerei como também sou conhecido” (13.12). De certo modo para cada crente em individual os dons cessam por ocasião da morte, já que no paraíso ninguém precisará dos dons; mas para a igreja em geral os dons cessarão somente no “escaton”, no final de todas as coisas, quando alcançarmos a perfeição final! Até que esse tempo chegue, permanece a exortação: “procurai com zelo profetizar, e não proibais o falar em línguas” (1Co 14.39).
No temor do Senhor,
Tiago Rosas
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“Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos”
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