O que Significa Ser Cheio do Espírito Santo






Alcino Junior





Um dos temas mais importantes do pentecostalismo é a atuação do Espírito Santo na vida do crente. Cremos que a terceira pessoa da Trindade não é uma mera "força ativa" ou apenas uma "emanação do Divino", para nós, o Espírito Santo é Deus, que age em e por meio de nós. Também é cara à doutrina pentecostal a noção de que devemos buscar viver uma vida de acordo com as diretrizes impostas pela Palavra de Deus, buscando nos portar de maneira santa e experimentando (a experiência também é algo fundamental em nossa doutrina) a plenitude do Espírito. Ou seja, o pentecostal é alguém que busca viver de maneira reta sem esquecer das palavras do Apóstolo Paulo um Ef 5.18 "(...) enchei-vos do Espirito".





Mas, afinal, o que é ser "cheio do Espírito Santo"? A resposta para essa pergunta só pode ser dada de forma satisfatória se fizermos o uso correto da hermenêutica neotestamentária sob a ótica pentecostal. Caso contrário, incorreremos em erros graves que refletirão diretamente em nossa prática cristã diária.





Antes de responder à pergunta principal, uma observação se faz necessária: como estamos no campo da hermenêutica (ciência que define os princípios ou métodos para
a interpretação do significado dado por um autor específico) precisamos ressaltar o fato de que a Bíblia possui cerca de 40 autores, todos inspirados por Deus sem, no entanto, perder as suas particularidades e, por que não, as suas limitações.





Essa observação é importante para que saibamos que a Bíblia deve ser lida como um todo, um construto coletivo. Não podemos perder de vista o entendimento de que os textos e autores se complementam formando todos uma única ideia: Cristo é o único caminho de salvação para o pecador. Uma vez que essa ideia está madura em nossas mentes somos capazes de entender que, ao nos debruçarmos sobre temas bíblicos, é importante que saibamos o que os diversos autores que compõem o cânon têm a dizer sobre o nosso objeto de pesquisa. E é aqui que moram dois grandes equívocos sobre a nossa pergunta inicial, dos quais falaremos mais a frente.





Antes, precisamos destacar que o Espírito Santo é um dos temas principais de dois autores do Novo Testamento: Lucas e Paulo. É impossível termos uma compreensão adequada do papel do Espírito sem fazermos uma leitura atenta desses dois escritores inspirados.





Paulo -- o "apóstolo dos gentios" -- apresenta o Espírito Santo como um transformador do caráter, aquele que planta em nós seu fruto para que possamos ser pessoas retas, com a mente transformada para nadar contra a corrente deste século. Ou seja, em Paulo, o Espírito Santo é aquele que molda nossa personalidade de acordo com a vontade Deus.





Já em Lucas -- o "Teólogo do Espírito Santo" -- o Espírito é apresentado como aquele que reveste de poder. Na literatura lucana o Espírito é que capacita sobrenaturalmente o crente para o serviço, por meio dos dons espirituais. Logo, para Lucas, O Espírito Santo é quem dá poder ao cristão para ir além dos limites que lhe são impostos e tocar o sobrenatural para servir de forma plena na Obra de Deus.





Isso posto, passamos a falar sobre os dois equívocos interpretativos a que nos referimos alguns parágrafos acima:





O primeiro erro consiste em enxergar o Espírito apenas sobre as lentes paulinas. Ou seja, ignora-se completamente o sobrenatural sob o argumento de que alguém que tem um bom caráter é cumpre com suas obrigações já é cheio do Espírito. Se isso fosse verdade, teríamos inúmeros ímpios que são cheios do Espírito, o que seria absurdo.





O segundo erro consiste em olhar para o Espírito Santo apenas com as lentes de Lucas. Ou seja, ignora-se o caráter do agente sob o argumento de que, se os dons estão aparecendo, o caráter pode ser tratado em outro momento, um absurdo de igual monta.





Com isso concluímos que, ser cheio do Espírito é uma junção das duas coisas: caráter transformado e revestimento de poder. Olhar a atuação do Espírito apenas por meio de Lucas poderá gerar meninice e hipocrisia; olhá-lo apenas por meio de Paulo poderá gerar frieza e comodismo.





Portanto, leiamos e vivamos a Palavra como um todo para que possamos experimentar a plenitude do Espírito Santo em nossas vidas.





FONTE: ALCINO JUNIOR


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