Sobre Manifestações Físicas – Os Históricos

Leandro Lima
A foto que encabeça esse singelo artigo foi tirada durante a convenção geral da Church of God of Prophecy (Igreja de Deus da Profecia) em 1930, denominação fundada por um dos grandes precursores do Pentecostalismo, Ambrose Jessup (AJ) Tomlinson (1865 - 1943) e compõe o acervo do CEMP (Centro de Estudos do Movimento Pentecostal), um departamento da CPAD (RJ) cuja finalidade é preservar a memória e tornar conhecida a história do Movimento Pentecostal no Brasil e no mundo.
Chamada de “Mulher dançando no Espírito” este tesouro histórico do Pentecostalismo nos dá um vislumbre de como eram os cultos no início do Movimento Pentecostal.
Mãos erguidas, expressões de profunda introspecção e de esplendorosa alegria podem ser facilmente identificáveis nessa foto, o que nos remete de imediato aos nosso dias, pois esta mesma atmosfera pode ser vista ainda hoje, 89 anos depois, não apenas na maioria dos cultos das igrejas de tradição pentecostal em nosso país, mas também nas igrejas tradicionais ou históricas, o que se explica pelo impacto que o Movimento Pentecostal – que abarca a maioria dos evangélicos do nosso país – causou na cristandade, em suas diversas expressões.
Dentre os diversos exemplos que poderíamos citar acerca desse impacto do Pentecostalismo sobre outras tradições cristãs, certamente a história da chamada Renovação Espiritual é um dos mais emblemáticos.
A Renovação Espiritual, que se deu no seguimento batista especialmente no Norte e no Nordeste do nosso páis, teve nos pastores José Rêgo, Enéas Tognini e Rosivaldo de Araújo, autor do hino Obra Santa, composto em meio à perseguição e o vitupério infligido por diversos dos seus pares, que os acusavam de paganistas, feiticeiros e apostatas por trazer para os arraiais batistas os ensinos e práticas tipicamente pentecostais, os seus principais atores.
Tais perseguições não conseguiram aplacar esse movimento que marcou de forma indelével a história e a identidade dos batista em nosso país sob diversos aspectos, dando ainda mais força ao coro do hino do movimento de Renovação Espiritual:
“Ninguém detém! É obra santa (bis)
Nem satã, nem o mundo todo
Pode apagar esse ardor.
Ninguém detém! É obra santa!
Esta causa é do Senhor”
Mas o nosso objetivo neste artigo, o quarto dessa série, é mostrar que as manifestações físicas ou dramáticas, como alguns chamam aquelas que envolvem os afetos e o corpo dos crentes carismáticos, não são resultado (somente) da influência neopentecostal ou fruto de meninice, carnalidade e emocionalismo entre os pentecostais. Antes, elas estiveram presentes desde os primórdios do Movimento Pentecostal, sendo uma das suas marcas identitárias, razão pela qual podem ser chamadas, com propriedade, de “manifestações pentecostais”.
Frank Bartleman, alcunhado de “Repórter do Reavivamento da rua Azusa”, registrou em seus folhetos, livros, centenas de artigos e crônicas muito daquilo que o Espírito de Deus estava realizando em 1906 na cidade de Los Angeles, particularmente em Azusa Street, local de onde o Movimento Pentecostal se espalharia por todo o mundo.
Ao descrever a maneira como reagiam à manifestação do poder Espírito Santo os irmão reunidos naquele edifício de estrutura precária na rua Azusa, Bartleman nos informa em seu famoso livro O Avivamento da Rua Azusa que:
“Alguém podia estar falando. Repentinamente, o Espírito caía sobre toda a congregação. Deus mesmo fazia os apelos. Homens caíam por toda a casa como mortos numa batalha, ou corriam ao altar em massa buscando a Deus. A cena muitas vezes parecia uma floresta cheia de árvores caídas”. (BARTLEMAN, 2015, p. 37-38)
Enquanto alguns ficavam fascinados com este ambiente, creditando o que ali realizava-se a uma poderosa manifestação do poder de Deus, outros, porém, avaliavam de forma muito negativa.
Esse tom negativo pautou a reportagem do Los Angeles Daily Times no dia 18 de abril de 1906, onde, numa abordagem ácida e negativa, o repórter enviado a um culto noturno no dia anterior, relatou em tom depreciativo o seguinte:
"Com gritos estranhos e pronunciando coisas que aparentemente nenhum mortal em seujuízo normal pudesse entender, teve início, em Los Angeles, a mais recente seita religiosa. (...) As reuniões acontecem em um prédio decadente da rua Azusa, e os devotos de doutrinas estranhas praticam os ritos mais fanáticos, pregam as mais extravagantes teorias e se colocam em um estado de louca euforia quando se entregam ao fervor pessoal." (Los Angeles Daily Times, 1906).
As reuniões são realizadas num barracão caindo aos pedaços, na Rua Azusa, perto da Rua San Pedro. Ali, devotos das mais estranhas doutrinas praticam rituais próprios de fanáticos, pregam teorias extravagantes e tentam atingir, com fervor que lhes é peculiar, um estado de excitação que beira a insanidade. Negros e uma pequena quantidade de brancos compõem a congregação, e à noite os uivos dos adoradores promovem um espetáculo medonho para a vizinhança. Eles passam horas balançando para frente e para trás num enervante exercício de orações e súplicas. Eles alegam possui o “dom de línguas” e se dizem capazes de entender aquela babel”. (Los Angeles Daily Times, 1906).
Antes das reuniões na Rua Azusa, o pregador William Seymour dirigiu reuniões de oração na casa de Richard e Ruth Asberry, na rua Bonnie Brae n° 17, também em Los Angeles..
Lá também houve manifestações idênticas àquelas relatadas por Bartleman na Rua Azusa, as quais chocaram crentes e descrentes da época.
Uma testemunha ocular relata o seguinte a respeito dos eventos ocorridos naquela modesta casa de quatro cômodos no dia 6 de abril de 1906, os quais perduraram por três dias ininterruptos:
“Eles gritaram três dias e três noites. Era época da Páscoa. As pessoas chegavam de todos os lugares. Próximo ao amanhecer, não havia mais como entrar na casa. Os que conseguiam entrar caíam sob o poder de Deus. A cidade inteira ficou alvoraçada. Eles continuaram o clamor até o chão da casa ceder, mas ninguém ficou ferido.” (HOLLENWEGER, 2009, p.73).
Contudo, não obstante o Movimento Pentecostal ter ganhado o mundo a partir dos eventos em Azusa, as raízes do despertamento espiritual remontam a anos anteriores.
Em diversos cantos do planeta, especialmente entre os metodistas e os movimentos holiness (movimento de santidade) e Higher Life (vida superior) na América do Norte - que se deram entre os líderes das igrejas de origem wesleyana, dentre os quais destacam-se D.L. Moody, Phoebe Palmer, A.B. Simpson, A. J. Gordon, Asa Maham, Charles Finney dentre outros -, pequenos avivamento ganhavam notoriedade, e, mais uma vez, as experiências dramáticas se faziam presentes.
Alguns desses pequenos avivamentos transcorreram-se nos acampamentos holiness, onde cristãos de diversas denominações, principalmente metodistas, se reuniam com um propósito comum: a busca pela experiência de santificação.
Curiosamente, a origem desses acampamentos de santidade é presbiteriana.
Eles se iniciaram na Igreja Presbiteriana de Cane Ridge (Kentucky), pastoreada por Barton W. Stone, que viria a ser chamado de herege e forçado a se desligar da Igreja Presbiteriana após o Sínodo de Kentucky por conta do que ocorria nesses acampamentos, especialmente os chamados “exercícios”, manifestações corporais bastante comuns durante aqueles avivamentos.
Em sua autobiografia (1847), Stone descreve as formas de êxtase religioso que presenciou durante os acampamentos.
Stone relata a ocorrência de tremores, dança, risada, corrida, cânticos espirituais e, mais comumente, as quedas:
“O exercício de queda era comum a todas as classes: de santos a pecadores de todas as idades e de toda a estirpe, de filósofos a palhaços. Esse exercício geralmente consistia em um grito lancinante seguido de uma queda, como de uma árvore, ao assoalho, à terra ou no meio da lama, e a pessoa ficava como morta. Num desses encontros, duas alegres jovens irmãs, de repente emitiram um som agudo de lamento e ficaram caídas, inertes, por mais de uma hora. Finalmente, deram sinal de vida, clamando aflitas por misericórdia, e então retornaram ao estado de inércia. O aspecto do semblante delas era horrível. Depois de certo tempo, a deformação foi desaparecendo até ser substituída por um sorriso celestial, e elas gritavam: “Precioso Jesus!”. Então, elas se levantaram e começaram a dar testemunho do amor de Deus.” (STONE, 2009, p.53).
A chama pentecostal que incendiava o mundo chegaria ao Brasil em 1910, em Belém do Pará, através de dois jovens suecos que haviam experimentado pouco tempo antes de sua chegada em nossas terras o batismo no Espírito Santo: Gunnar Vingren e Daniel Berg.
No Diário do Pioneiro, um registro das memórias do Missionário Gunnar Vingren compiladas pelo seu filho Ivar Vingren, o pastor Sueco e pioneiro pentecostal Lewi Pethrus – que recebera o batismo no Espírito Santo com línguas estranhas antes mesmo de saber sobre o que o Senhor estava fazendo em Azusa ou mesmo o que exatamente havia experimentado -, na introdução do Diário, narra com naturalidade uma manifestação pentecostal que testemunhou na vida do pioneiro pentecostal, a qual ele mesmo havia registrado em seu diário:
“Vingren conta várias vezes nas suas notas como a sua alegria em Deus frequentemente se manifestava em riso. Nós, que tivemos o privilégio de estar com ele, nos lembramos como ele ria muitas vezes quando essas ondas de alegria do poder de Deus vinham sobre ele.” (PETHRUS, 2017, pp. 16-17).
Conforme pudemos ver, manifestações físicas, dramáticas ou emocionais foram uma marca do Movimento Pentecostal desde os seus primórdios, de sorte que é incorreta a afirmação de que a presença delas em cultos pentecostais seria resultado da influência neopentecostal em solo pentecostal.
No próximo e último artigo dessa série, pretendemos fazer uma defesa das manifestações físicas, mostrando que estas não são estranhas às Escrituras e ocorreram não apenas na história do Movimento Pentecostal, mas também em todos os grandes avivamentos no decurso da história do cristianismo.
Em Cristo,
Pr. Leandro Lima.
Fonte: Leandro Lima
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