"Porta dos Fundos" e a Censura

Por Alcino Junior



Não assisti o especial de natal do Porta dos Fundos. Nem vou. Não importa. É um conteúdo irrelevante pra mim.

Porém nem todos concordam comigo. Para alguns, o especial é relevante pois consideram seu conteúdo de qualidade. Julgam que há excelência em zombar da fé alheia, desde que essa fé não seja num cachorro, por exemplo. Afinal, zombar de Jesus Cristo não tem nada demais. O que nao se pode, por exemplo, é zombar dos tais "pets"-- que devem ser reverenciados como objeto de um amor que os os humanos supostamente não merecem; seja por constatação tácita, frustração, trauma, ou meramente para parecer mais descolado e, enfim, alguém que "quer o bem".

Há também alguns que avaliam o conteúdo como relevante porque o acham ofensivo. Estes vociferam e consideram um disparate que tamanho escárnio chegue ao grande público. Para esses, o Evangelho não deve ser motivo de chacota. Uma concepção que me parece estranha, visto que somos alvo de zombaria desde sempre. Uma leitura superficial do capítulo dois do livro de Atos dos Apóstolos esclarece isso de forma cristalina. Nessa esteira, Paulo explicita que o Evangelho é "loucura para os que perecem" (1Co 1.18). Nada novo debaixo do sol.

O problema aqui é que o Estado se levantou para censurar (não há outro termo cabível neste particular) o longa (ou curta, nem sei). E com isso, cercear a liberdade de expressão alçando um grupo de humor medíocre ao status de mártir da liberdade de expressão. Nenhum dos integrantes do grupo deixará esse fato morrer e teremos de aturá-los para sempre falando que foram censurados com aquele tom de intelectuais incompreendidos que muitos artistas completamente irrelevantes fazem até hoje quando se referem ao período militar no Brasil.

Tudo culpa de uma militância tola que não percebe que assim não se vence uma guerra cultural, apenas se abre um precedente: hoje são eles, amanhã seremos nós.

O melhor aqui é fazer com que os cristãos entendam que a cultura também pode ser redimida por nós. Se eles fazem um especial zombando, que nós façamos um especial de melhor qualidade exaltando. É possível. Basta querer e compreender que o papel de defender a fé é nosso e não de um tribunal.

Voltando ao capítulo dois de Atos: quando o apóstolo Pedro viu que estavam zombando dos que estavam cheios do Espírito, ele não foi ao Sinédrio clamar por justiça; ele se levantou e pregou com ousadia. Por meio dele, três mil zombadores se tornaram servos. Nosso papel, em casos como esse, não é clamar aos juízes por justiça e sim pregar para que, por meio da fé, escarnecedores se tornem justificados.



Fonte: Alcino Junior

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