Conceito de Justificação Somente Pela Fé

Conceito de Justificação somente pela fé
Embora no Novo Testamento o assunto apareça em destaque, no Antigo Testamento o assunto é também mencionado. A palavra “justificação” vem do termo hebraico tsadiq, que significa “declarar que o confessante está judicialmente de acordo com as exigências da lei” (Ex 23:7; Dt 25:1)²²³. Mesmo sendo no Antigo Testamento, o Pastor e teólogo calvinista Warren W. Wiersbe, no seu comentário Bíblico, comenta o capítulo 23 do livro de Êxodo:
Deus, no que se refere à aplicação da lei, não quer que se justifique o ímpio
(v.7; 2 Cr 6:23). No entanto, no que se refere a salvar o pecador perdido,
Deus, em sua graça, justifica o ímpio (Rm 4:5). Ele pode fazer isso porque o
filho de Deus propiciou a punição por nossos pecados na cruz. [224]
O teólogo argumenta que mesmo que a lei tivesse uma finalidade naquela época, faz um apontamento para o futuro da doutrina justificação pela fé no Novo Testamento. Mas não é só o pastor Wiersbe que tem este entendimento. Os comentaristas bíblicos do Antigo Testamento corroboram essa argumentação. Esse assunto é apresentado no Antigo Testamento, na antiga aliança, fazendo uma ponte para o Novo Testamento na seguinte forma:
Poucas expressões na Escritura tiveram impacto tão duradouro quanto a
declaração do Senhor a Habacuque de que o justo, pela sua fé, viverá (Hc 2:4). Se você é protestante nos dias de hoje, este versículo tem um papel importante em sua herança espiritual: Martinho Lutero o adotou como seu lema durante a Reforma Protestante, no começo do século 16. Mas, provavelmente Habacuque não compreendia toda dimensão da verdade explosiva contida na declaração de Deus. Ela aparece como parte de um prelúdio a um cântico de provocação que o profeta foi instruído a cantar na Babilônia (Hc 2:1–6). O Senhor estava explicando por que os
babilônicos seriam julgados. asicamente, eles eram um povo orgulhoso,
no sentido de que não temiam a Deus. Por sua vez, a pessoa justa - aquela que merecia a aprovação e a benção de Deus - cairia nas graças de Deus, por causa da sua fé no Senhor.
Na verdade, a palavra hebraica traduzida como fé, emuná, significa firmeza
ou fidelidade. O israelita que seguia o pacto com fidelidade, cumprindo a Lei
de Deus, era considerado uma pessoa justa ou santa (Sl 15). O que estava
em questão não era a etnia judaica da pessoa, e sim a obediência a Deus.
O problema dos babilônicos, portanto, não era um problema de etnia, eles
serem gentios, e sim o fato de viverem uma vida cheia de perversidade e
idolatria. Viviam arrogantemente, como se seus interesses pessoais fossem tudo o que importasse. Por isso, o Senhor os humilharia de acordo com os
cinco ais proclamados por Habacuque (Hc 2:6-20).
No Novo Testamento, Paulo destacou a ideia de a pessoa viver somente
pela fé (Rm 1:17; Gl 3:10-12). Com a vinda de Cristo, ele nos deu uma
compreensão mais aprofundada dessa frase. Viver pela fé não significa
obedecer à Lei apenas para os outros verem, como muitos líderes judeus
daquela época presumiam, e sim comprometer-se de todo o coração com o
Senhor, e com o reconhecimento de que apenas Cristo é capaz de tornar
alguém justo perante Deus. Isto não elimina a necessidade de viver com
fidelidade, segundo Deus, e sim estabelece uma boa base para fazê-lo. 225
Esta argumentação reforça que tudo que ocorreu no Antigo Testamento
era uma preparação para a Nova Aliança.
No Novo Testamento, a palavra “justificação” vem grego dikaiós. Trata-se
de um verbo e significa “declarar que uma pessoa é justa” e, ainda que “o
caráter moral dessa pessoa está em conformidade com a lei” (Mt 12:37; Rm
3:4). [226] O dicionário Vine faz uma definição da palavra dikaiõma, que tem três
significados distintos, e parece mais bem descrito de forma ampla como
expressão concreta de justiça; é uma declaração de que uma pessoa ou coisa
é justa, e, por conseguinte, falando em linhas gerais, representa a expressão e
o efeito de dikaiôsis. Significa: (a) “ordenança” (Lc 1:6); Rm 1:32, “a justiça de
Deus” (“a sentença de Deus”, ARA), ou seja, o que Deus declarou ser certo,
referindo-se ao Seu decreto de punição; Rm 2:26, “os preceitos da lei”, ou seja,
as justas exigências ordenadas pela lei”; o mesmo se dá em Rm 8:4, “a justiça
da lei”, ou seja, coletivamente, os preceitos da lei, tudo o que ela exige como
certo; em Hb 9:1,10, as ordenanças relacionadas ao ritual do Tabernáculo; (b) “sentença de absolvição” pela qual Deus absolve os homens da culpa, sendo
as condições: (1) a Sua graça em Cristo, mediante Seu sacrifício expiatório; (2) a aceitação de Jesus pela fé (Rm 5:16); (c) o “ato justo”, Rm 5:18, “ato de
justiça”. [227]
Em outras palavras, o termo “justificação” refere-se ao ato mediante o qual, com base na obra infinitamente justa e satisfatória de Cristo na cruz, Deus declara os pecadores condenados livres de toda a culpa do pecado e de suas consequências eternas, declarando-os plenamente justos aos seus olhos.
O Deus que detesta “o que justifica o ímpio” (Pv 17:15) mantém sua própria justiça ao justificá-lo, porque Cristo já pagou a penalidade integral do pecado
(Rm 3:21-26). Constamos, portanto, diante de Deus como plenamente
absolvido. [228]
Todos os reformadores se levantaram vigorosamente contra a doutrina da
salvação pelas obras, ou pelos méritos, ou da colaboração com Deus na
salvação. Todos eles, desde o início de seu ministério reformado, afirmaram que a fé é o único instrumento que Deus nos dá para nos apossarmos da salvação que ele concede graciosamente. Podemos afirmar que essa doutrina foi um dos destaques de Lutero. Logo que Lutero entendeu a verdade da justificação somente pela fé, ele se tornou cristão; e sua recém-descoberta, o Evangelho, o transbordava de alegria.
A questão principal da Reforma Protestante foi uma disputa com a Igreja
Católica Romana sobre a justificação. Para que nos seja possível salvaguardar a verdade do evangelho para as futuras gerações, temos de entender a
verdade da justificação, mesmo. Uma verdadeira visão sobre a justificação é a linha divisória entre o evangelho bíblico da salvação somente pela fé e todos os falsos evangelhos baseados nas obras. [229]
De acordo com Lutero, essa justiça vem de Deus apenas, pela fé em
Jesus Cristo. Esta justiça não é julgada diante dos homens, mas perante Deus.
Visto ser o homem pecador, não pode conseguir esta justiça por si mesmo. [230]
Na tradição do escolasticismo, a fé era colocada no mesmo nível da razão, Lutero e os reformadores discordaram disso. Isso mostra a diferença do conceito de fé na Reforma do que da teologia da escolástica. Para Lutero, a justificação pela fé contradiz a razão e ultrapassa tudo que pode ser compreendido ou realizado por esforço humano. Esta justiça é adquirida pelo sofrimento e morte de Cristo, e é atribuída ao homem pela fé, independente de qualquer mérito ou dignidade humanas. E acrescenta:
Deus declara o pecador justo por causa de Cristo. Essa justificação ocorre
quando o homem se humilha perante Deus, reconhece que é pecador e
clama por misericórdia e graça de Deus. Tal homem confessa que está cheio de pecado, mentiras, vaidade, incompetência e perdição, enquanto
que Deus é tudo o que é bom. Nesta fé, e com tais orações, o coração do homem torna-se um com a justiça e virtude de Deus. Cristo torna-se sua justiça, sua santificação, seu livramento. [231]
Lutero defendeu que a justificação é totalmente transcendental, as obras
não tinham nenhuma participação. A razão humana não tinha essa capacidade
de entender esta doutrina. A fé justificante, em outras palavras, não é apenas
conhecimento histórico do conteúdo do evangelho; é a aceitação dos méritos
de Cristo. A fé, portanto, é confiança na misericórdia de Deus por causas de
Cristo. ²³² A doutrina da justificação pela fé é bem desenvolvida pelo apóstolo
Paulo. Para o apóstolo dos gentios, a justificação significa um novo
relacionamento com Deus (Fp 3:9), uma nova liberdade da culpa e da
condenação, acompanhada por um compromisso de transformação para
obedecer a Deus e uma nova capacitação pelo Espírito Santo para alcançar a
esperança do evangelho. ²³³ Esse é um dos benefícios da doutrina da
justificação da fé por meio da salvação em Cristo Jesus.
Segundo Bentg Hagglund, no seu livro História da Teologia, Lutero citava
o exemplo de Abraão apresentado em Rm 4: “Abraão creu em Deus, e isso lhe
foi imputado para justiça”. Em conexão com isso, é costume falar em justiça
imputativa como característica da teologia da Reforma. [234] Nos versículos
quatro e cinco do capitulo cinco de Romanos, fala que a justiça foi imputada a Abraão. Isso significa que o patriarca não precisou trabalhar para ganhar essa justiça. Deus justifica aqueles que creem. Todo aquele que vem a Deus pela fé é considerado justo. Não é necessário praticar obras rituais, ou ser um seguidor das leis judaicas para ser justificado. [235] Era assim que Lutero e os outros reformadores interpretavam essa doutrina. Jacó Armínio, corroborando os reformadores, afirma que somente assim somos justificados diante de Deus, absolvidos de nossos pecados, além de sermos considerados, pronunciados e declarados justos por Deus, que executa o seu juízo no trono da graça. [236]
Para o teólogo batista Russel Shedd, o homem precisa reagir com fé. Ele
precisa responder à ação amorosa de Deus ou ficar em rebelião perpetua.
Qualquer salvação que não é trabalhada com temor e tremor (Fp 2:12) é uma
decepção. [237] O comentarista calvinista Warren W. Wiersbe faz um comentário
sobre Romanos 4:1 – 8:
Todo judeu reverenciava o “pai Abraão” e sabia, por intermédio de Gênesis
15:6, que fora justificado diante de Deus. Eles referiam-se ao céu como
“seio de Abraão”, tal a certeza que tinham de que Deus aceitara Abraão.
Paulo, como sabia disso, aponta para Abraão e pergunta: “Que diremos,
pois, ter alcançado [justificado] Abraão, nosso pai segundo a carne? Isso
aconteceu pelas obras? Não, pois nesse caso ele seria glorificado por sua
realização, e o Antigo Testamento não registra nenhum feito desse tipo. O
que as Escrituras dizem? “Creu Abraão em Deus! A dádiva da justiça vem
pela fé na Palavra revelada de Deus, não pelas obras.
Observe que Paulo, em seu argumento, usou as palavras “imputado” e
“levado em conta”. Essas palavras tem o mesmo significado: pôr na conta
da pessoa. A justificação significa imputar (pôr na nossa conta) justiça, e isso nos dá posição certa diante de Deus. [238]
O teólogo acrescenta que salvação é uma recompensa pelas obras ou
uma dádiva que recebemos pela graça; não pode ser as duas coisas. O
versículo 5 afirma que Deus justifica o ímpio (não o justo) pela fé, não pelas
obras. Paulo provou que o “pai Abraão” foi salvo apenas pela fé, embora os
judeus pensassem que Deus justificava as pessoas por suas obras. A seguir,
Paulo menciona Davi e prova que o grande rei de Israel ensinava a justificação
pela fé, independentemente das obras, ao citar Salmos 32:1,2. Deus não
imputou o pecado em nossa conta, mas o transferiu para a conta de Cristo (2
Co 5:21; Fm v.18). Antes, o Senhor, apenas pela graça, imputa-nos a justiça de
Cristo! Nossa salvação é magnífica! [239]
BIBLIOGRAFIA
220 COUTO, Vinicius (Org.). Igreja Reformada sempre Reformada A fidelidade aos princípios da Reforma e sua atualidade nas teologias arminianas clássica e wesleyana. São Paulo. Editora Reflexão. 2017. Página 61.
221 NORDLING, Stanley J. Grenz, David Guretzki, Cherith Fee. Dicionário de Teologia. São Paulo.
Editora Vida. 2004. Página 75.
222 COUTO, Vinicius (Org.). Igreja Reformada sempre Reformada A fidelidade aos princípios da Reforma e sua atualidade nas teologias arminianas clássica e wesleyana. São Paulo. Editora Reflexão. 2017. Página 62.
223 BRUNELLI, Walter. Teologia para Pentecostais. – Uma Teologia Sistemática Expandida. Volume 3.
Rio de Janeiro. Central Gospel. 2016. Página 344.
224 WIERSBE, Warren. Comentário Bíblico Wiersbe Antigo Testamento. Rio de Janeiro. Central Gospel. 2008. Página 125.
225 HOUSE, Earld D. Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne. O Novo Comentário Bíblico Antigo
Testamento. Rio de Janeiro. Central Gospel. 2010. Página 1376.
226 BRUNELLI, Walter. Teologia para Pentecostais. – Uma Teologia Sistemática Expandida. Volume 3. Rio de Janeiro. Central Gospel. 2016. Página 345.
227 JR., W. E. Vine, Merril F. Unger, Wlilliam White. Dicionário Vine – O Significado Exegético e
Expositivo das Palavras do Antigo Testamento e do Novo Testamento. Rio de Janeiro. CPAD. 2014.
página 733.
228 HORTON, Stanley (Org.). Teologia Sistemática-Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro. CPAD.
1999. Página 372.
229 GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática – Atual e Exaustiva. São Paulo. Vida Nova. 2009. Página
603.
230 HAGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre. Concórdia. 2003. Página 192.
231 Ibidem. Página 192
232 Ibidem. Página.192
233 SHEDD, Russell P. Justificação – A Resposta de Deus para uma Vida Cristã Autêntica. São Paulo. Vida Nova. 2010. Página 29.
234 HAGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre. Concórdia. 2003. Página 193.
235 HOUSE, Earld D. Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne. O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento. Rio de Janeiro. Central Gospel. 2010. Página 371.
236 ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio – Volume 2. Rio de Janeiro. CPAD. 2015. Página 407.
237 SHEDD, Russell P. Justificação – A Resposta de Deus para uma Vida Cristã Autêntica. São Paulo. Vida Nova. 2010. Página 30.
238 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Wiersbe Novo Testamento – A Bíblia explicada de maneira clara e concisa. Geográfica Editora. Santo André/SP. Página 405.
239 Ibidem, página 405.
240 Ibidem, página 408.
241 TITILO, Thiago Velozo. Jamais Perecerão - Uma análise Teológica, Histórica e Exegética da Segurança Eterna dos Salvos. Rio de Janeiro. Verbum Publicações. Página 148.
FONTE
FONTES, Ediudson. Reforma Protestante e Pentecostalismo. São Paulo. Reflexão. 2019. Página 72 a 78.
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