Diálogos - Thiago Titillo
Thiago Velozo Titillo é pastor batista, casado com Danielly, e pai de Yasmim e Samuel. Especialista em Teologia Bíblica e Sistemática-Pastoral pela Faculdade Batista do Rio de Janeiro, graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Betel e licenciado em Letras pela Universidade Estácio de Sá. É professor da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ), do Seminário Teológico Evangélico Peniel e do Seminário Teológico Betel. Além de escrever artigos e resenhas para revistas especializadas em Teologia, Titillo é autor de: A gênese da Predestinação na História da Teologia Cristã, Eleição Condicional, Jamais Perecerão, Fé e Educação e Hermenêutica Bíblica. Participa também de outras publicações, contribuindo com capítulos de obras coletivas.

Abaixo, leia o diálogo do blog com o o pastor Thiago Titillo
Blog OCP: Como está o Arminianismo no Brasil?
Titillo: Eu acredito que o crescimento do arminianismo no Brasil alcançou seu ponto alto. Na verdade, as igrejas brasileiras já eram arminianas, ainda que ignorantes acerca de sua tradição teológica. Muitas obras de teólogos estrangeiros foram traduzidas e, logicamente, deve vir mais por aí. Autores nacionais têm publicado seus textos também. A posição teológica arminiana (sua soteriologia) já está acessível e clara para qualquer um que, com honestidade, pretenda conhecê-la. Acredito que a maior contribuição que os teólogos arminianos podem dar daqui para frente é escrever sobre assuntos diversos da teologia, como os calvinistas fazem: teologia bíblica, comentários bíblicos, textos sobre cosmovisão, etc. Aliás, neste ponto,preciso parabenizar o amigo, pastor e professor nazareno, Vinicius Couto, pela iniciativa de organizar a obra Cosmovisão Cristã, na qual autores variados, mas todos arminianos, produziram textos sobre assuntos distintos, como: política, economia, saúde, educação, etc. Creio que o crescimento do arminianismo no Brasil – necessariamente – deve passar da soteriologia para outros temas.
Blog OCP: Como classificar o crescimento da literatura arminiana no Brasil?
Titillo: Não sei se uma classificação seria benéfica, mas podemos tentar algumas classificações: 1) textos estrangeiros e textos nacionais; 2) textos introdutórios e textos de aprofundamento; 3) textos biográficos e textos teológicos; 4) textos expositivos e textos apologéticos; 5) teologia bíblica arminiana e teologia arminiana sistemática. A primeira classificação é evidente, tanto quanto a segunda e a terceira. A quarta classificação faz distinção entre obras que buscam expor o que é e em o que crê o arminianismo, em contraposição à publicações que buscam defender o arminianismo mostrando os erros de sua visão oponente. Por fim, a quinta e última classificação tem a ver com o método usado: a teologia bíblica arminiana parte da interpretação dos textos bíblicos, após rigorosa exegese de perícopes que tratam de assuntos pertinentes a esta tradição soteriológica; a teologia arminiana sistemática seria a busca de uma organização lógica dos pontos doutrinais, muitas vezes baseada no método dedutivo, e não na interpretação de passagens bíblicas, muitas vezes pressupostas para apoiar a posição.
Blog OCP: Se 90% das igrejas evangélicas são de confissão arminiana, como fazer com que os membros delas conheçam mais o Arminianismo?
Titillo: Pode parecer um tanto arrogante o que eu vou dizer, mas nada melhor do que pregar/ensinar a Bíblia para que a igreja brasileira conheça melhor o arminianismo. Digo isso porque o arminianismo é um sistema doutrinário fundamentado na Bíblia somente.
Blog OCP: Qual é a relação entre arminianismo e a vida cristã?
Titillo: O arminianismo se relaciona com a vida cristã em vários (todos?) os aspectos daquela. Em especial, destaco a missão da Igreja. Esta é uma extensão de Cristo na terra, e sua missão é torná-lo conhecido reconciliando o mundo com ele por meio da pregação do evangelho. Logicamente, irmãos calvinistas pregam a Palavra com intrepidez, evangelizam, fazem missões. Mas não fazem isso porque suas crenças o levam a isso. O calvinismo não dá ao crente um senso de responsabilidade como cooperador da obra redentora de Cristo. Calvinistas não pregam por causa do seu calvinismo, mas apesar do seu calvinismo. Neste sentido, a missão da igreja brota mais naturalmente da perspectiva arminiana de uma salvação sinergista (sem entrar no mérito da conceituação e de outros termos propostos). Outra questão bem enfatizada pela tradição arminina, em especial, o arminianismo-wesleyano, é a questão da santidade. Mais uma vez, apresso-me a dizer que os homens mais santos que conheci podem ser encontrados dentro da tradição calvinista.
Blog OCP: O que pensa sobre esta linha de pensamento: não ser nem calvinista, nem arminiano?
Titillo: Sou pastor batista e no meu meio tal afirmação é normal: “não sou calvinista, nem arminiano – sou bíblico!”. Com isso, quase nada foi dito. Ou calvinistas e arminianos diriam que não são bíblicos. Existem pessoas que não gostam de rótulos. É compreensível. Mas a pergunta final é: “você, que não é calvinista nem arminiano, mas bíblico... você é monergista ou sinergista?”. Noutras palavras, o homem “participa” da salvação, mesmo que seja com mero consentimento da oferta salvadora, ou é totalmente passivo? A resposta mostrará se tal crente é calvinista ou arminiano, gostando ele do rótulo ou não.
Blog OCP: O senhor entende que o pelagianismo e o semipelagianismo têm força no evangelicalismo brasileiro ou são pensamentos teológicos com os quais não devemos nos preocupar?
Titillo: Pelagianismo, propriamente dito, só existe nas alas liberais do protestantismo, onde a tônica é o humanismo. Mas não podemos ignorar o poder de infiltração dos pensamentos humanistas no meio evangelical por meio de Seminários e Faculdades Teológicas. O semipelagianismo é mais visível no meio evangelical conservador. Inclusive, como visão dominante. As publicações arminianas pretendem corrigir esse erro.
Blog OCP: O senhor entende que o Arminianismo de quatro pontos cresceu ou muitos batistas são de cinco pontos?
Titillo: No meio Batista, arminianos de 5 pontos são minoria - como os batistas do livre-arbítrio ou alguns pastores de origem pentecostal dentro da denominação. Mas não digo que o arminianismo de 4 pontos cresceu na denominação Batista: ele sempre foi dominante.
Claro, os batistas (não calvinistas) geralmente não se identificam como arminianos. Isso porque não concordam com a depravação total, e, consequentemente, não têm um conceito de graça preveniente (pelo menos, não igual ao arminianismo clássico ou wesleyano). Mas eu costumo classificar os batistas não calvinistas como arminianos de 4, pois embora haja diferenças técnicas no aspecto teológico, na prática as crenças convergem.
Vejamos: batistas que defendem a soteriologia tradicional (não calvinista), entendem que a depravação total do homem manifesta-se como uma natureza inclinada ao pecado, mas que não envolve culpa nem torna o homem totalmente incapaz de responder à graça de Deus. Assim, o livre-arbítrio do homem caído, mesmo que prejudicado, não foi extinto.
Nos EUA, alguns medalhões batistas, incluindo o arminiano Roger Olson e o calvinista Albert Mohler não hesitaram ao acusarem os batistas não calvinistas de serem semipelagianos. Uma retumbante resposta foi escrita no livro Anyone can be saved (no prelo, Verbum Publicações), demonstrando que a perspectiva Batista jamais especulou a possibilidade do homem dar o passo inicial em direção a Deus. Pelo contrário, o pecador somente pode ser salvo se a graça capacitadora/habilitadora (conceito teológico que substitui a graça preveniente, mas que alcança a mesma finalidade) preceder a iniciativa humana.
Assim, na prática, a doutrina Batista não difere da perspectiva arminiana: a depravação do homem não impede a salvação de quem quer que seja, ou por causa da graça preveniente (arminianismo), ou por causa da graça habilitadora (teologia batista). A eleição é condicional, a expiação é ilimitada e a graça é resistivel.
Quanto ao último ponto, embora haja algumas diferenças de conceituação, arminianos de 4 pontos e batistas não calvinistas concordam que o salvo não perderá a sua salvação.
Blog OCP: O que é Batista do Livre-arbítrio?
Titillo: De forma muito objetiva, é um grupo Batista que crê na possibilidade real de apostasia. Em alguns lugares são conhecidos como Batistas Livres. Nesse ponto, seguem os batistas gerais primitivos que receberam influência menonita. Esse grupo é biblicamente conservador e possui teólogos de peso, como por exemplo, Robert Picirilli, Leroy Forline e J. Matthew Pinson.
Blog OCP: O arminianismo de quatro pontos teve crescimento entre os irmãos não-batistas?
Titillo: Olha, isso é difícil de avaliar. Após o lançamento do meu livro Jamais Perecerão recebi feedback de irmãos não batistas, arminianos, que abraçaram a segurança eterna. Mas acredito serem casos pontuais…
Blog OCP: Quais são as obras que os interessados em conhecer – ou aprender – o Arminianismo de quatro pontos têm de ler?
Titillo: Especificamente, não me lembro de uma obra em defesa do arminianismo de 4 pontos. Tem meu livro Jamais Perecerão, que foca o último ponto (como bom Batista que sou, prefiro a expressão "segurança eterna" a "perseverança dos santos").
Existem outras obras de autores não calvinistas - não necessariamente arminianos, no sentido técnico - que defendem o ponto diferencial do arminianismo de 4 pontos. Em especial, algumas Teologias Sistemáticas Batistas, como as obras de Langston, Thiessen (esse sim, um arminiano de 4 pontos, embora parecesse não estar consciente disso) e Geisler e, aqui no Brasil, Zacarias Severa, Gabriel Porto e Ivan de Oliveira.
Blog OCP: Como o senhor vê o evangelicalismo brasileiro?
Titillo: O evangelicalismo brasileiro poderia experimentar maior maturidade. Há muito resquício de superstições romanas. E, quando olhamos para contexto mais amplo, o que inclui o neopentecostalismo, às vezes desanimamos. Mas quando comparo esse quadro com protestantes que flertam com o liberalismo teológico, acredito que é mais saudável a imaturidade do que a descrença.
Blog OCP: Quanto ao liberalismo teológico, o senhor entende que cresceu em nosso país, a ponto de o Brasil caminhar para o pós-cristianismo?
Titillo: Graças a Deus, ainda está restrito aos Seminários, não tendo muito alcance na vida da igreja. Mas isso é um problema que tem que ser abatido o mais rápido possível! Os pastores das igrejas são formados nesses mesmos Seminários. A penetração do liberalismo nas igrejas pode ser lenta, mas é desastrosa. Não é necessário mais do que poucas gotas de veneno em um copo d'água para causar dano…
Blog OCP: Como combater o liberalismo teológico?
Titillo: Passa pelo tratamento dispensado ao vocacionado na igreja local. Quando entrei no Seminário, já fui treinado. Eu lia teologia desde os 17 anos de idade, embora só tenha entrado no curso aos 25, após concluir Letras. Eu já tinha sido forjado por uma caminhada sólo. Poderia ser mais fácil. Aos 18 anos eu li Bultmann, o que abalou a minha fé numa escala vulcânica. Não tive acompanhamento nem qualquer líder me indicou literaturas mais apropriadas para um crente inexperiente academicamente. Com o abalo da minha fé, passei a me interessar por textos seculares mais críticos ao cristianismo. Li Marx, li Freud, li Nietzshe. A fé estava por um fio, e hoje o fato de eu ser cristão é obra pura da graça de Deus.
Como seria diferente se eu tivesse tido um acompanhamento desde o início por parte da minha liderança. Evitaria o sofrimento de uma fé abalada. Por isso, digo: líderes, acompanhem seus vocacionados; indiquem boa literatura teológica de autores conservadores na doutrina; caminhem com eles.
Hoje, o rapaz se vê vocacionado e vai para o Seminário sem ter lido a Bíblia toda, sem conhecer literaturas que poderiam ser cobradas dele por seus líderes num período de experiência como requisito para ser enviado ao curso de Teologia: Martinho Lutero, John Wesley; C. S. Lewis; A. W. Tozer; John Stott; John Piper.
Como pode um graduando em Teologia nunca ter lido a Bíblia toda? Como pode um seminarista nunca ter lido "Cristianismo puro e simples"? Isso evitaria muitos problemas quando o vocacionado fosse confrontado no Seminário com pressupostos da teologia liberal.
Assim, no meu entender, passa pela igreja local e sua liderança.
Blog OCP: Que resquício de superstições romanas é este ao qual o senhor se referiu?
Titillo: A necessidade de uma figura que seja um guru, um papa. A necessidade de objetos sagrados, como rosas ungidas, copo com água (benta?!), etc. A figura de um lider neopentecostal, na prática, não difere da figura do Papa. Suas colocações não passam pelo crivo de Bereia; pelo contrário, gozam de uma "infalibilidade" diante de seus fiéis. Isso apenas torna o crente mais distante de Deus, e enterra a doutrina do sacerdócio universal de todos os santos, redescoberta por Lutero.
Blog OCP: Fale-nos sobre sua editora.
Titillo: Na verdade, a Verbum Publicacoes não é minha editora, e sim da minha esposa, Danielly. Ela é minha patrôa de duas formas. Manda em casa (rs) e eu ainda trabalho para ela na editora.
Brincadeiras à parte, ela é a responsável pela Editora. Eu apenas escrevo, indico e analiso obras para publicação e trabalho na revisão/editoração de livros. A parte administrativa é toda dela.
Mas a Verbum é uma editora nova, ainda pequena, mas que terá novidades. Sua linha editorial segue a linha batista (não calvinista)/arminiana de 4 pontos (como disse em resposta anterior, são duas visões que convergem e compartilham muitas similaridades).
Mas virão obras em outras áreas da teologia. Nosso planejamento ja inclui uma obra de escatologia de autor nacional, e estamos negociando textos de fora.
Blog OCP: Como o senhor, um pastor batista, vê o movimento Pentecostal?
Titillo: Vejo-o como um movimento com sede de Deus, paixão pela santidade e pelo evangelismo, mas que precisa ser lapidado em sua liturgia e teologia. Este segundo ponto já tem experimentado algo nesse sentido, para a glória de Deus.
Comentários
Postar um comentário