Diálogos - Tiago Rosas


Tiago Rosas





casado, pai, ordenado evangelista pela igreja Assembleia de Deus em Campina Grande, onde serve como coordenador de Escola Dominical, cursou Letras e Teologia (Livre), é articulista do site Gospel Prime, escritor de quatro livros, sendo os mais recentes: Reflexões contundentes sobre Escola Bíblica Dominical e Poder, poder pentecostal: reafirmando nossa doutrina e experiência à luz das Escrituras. Na internet, é atuante há cerca de dez anos, compartilhando conteúdo bíblico, evangelístico e teológico, especialmente nas páginas que administra no Facebook: Teologia Arminiana e Pentecostal, e EBD Inteligente.





Tiago Rosas




Abaixo, leia a íntegra da entrevista de Tiago Rosas.





Blog OCP: Quando passou a querer ser professor de Escola Bíblica Dominical (EBD)? 





Tiago Rosas: Desde minha adolescência tenho trabalhado com Escola Dominical, tendo passado pelos mais diversos cargos: professor, secretário, superintendente e hoje coordeno a EBD em algumas congregações de nossa igreja. Minha primeira experiência foi como secretário, mas aos 18 anos lá estava eu assumindo uma classe de jovens. Guardo com carinho até hoje um livro intitulado “Uma maçã para meu professor”, que ganhei como presente de aniversário de alguns alunos daquela turma. Devido já manejar as Escrituras desde minha infância, visto que comecei a pregar cedinho, não demorou muito para também perceber minha vocação para o ensino.





Blog OCP: Em sua opinião, a EBD tem melhorado ou não houve mudanças?





Tiago Rosas: Isso é bem relativo. Há igrejas onde a Escola Dominical está sendo substituída por outros trabalhos e atividades que “movimentem mais o povo”. É lamentável, mas muitas igrejas não têm uma cultura de estudo bíblico e teológico, e isso se deve ao desinteresse de suas lideranças, a começar dos próprios pastores que, não raro, são adversários do estudo teológico. Por outro lado, porém, vejo muitas igrejas fortalecendo a EBD e solidificando investimentos para capacitar seu corpo dirigente e docente e oferecer uma estrutura de qualidade para acomodar os alunos. Há igrejas realizando com frequência seminários, conferências e congressos regionais e até nacionais para instruir melhor as lideranças. Isso é louvável.





Blog OCP: Quais são os maiores problemas da EBD em nosso país? Como resolvê-los?





Tiago Rosas: O primeiro grande problema que percebo é o desinteresse por parte das próprias lideranças eclesiásticas. Se um pastor não frequenta a EBD, não terá força para incentivar os demais obreiros e líderes a frequentarem também. E se as lideranças não comparecem, que autoridade terão para motivar seus liderados? Como todos sabem, o bom líder não é aquele que diz “vá!”, mas o que diz “Vamos!”. Alguns pastores e líderes não têm a mesma alegria de Davi: “Alegrei-me quando me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor’” (Sl 122.1). É triste dizer isso, mas há superintendentes e professores carregando penosamente nas costas a Escola Dominical de suas igrejas, sem nenhum apoio, incentivo, divulgação ou investimento do pastor local.





Outros problemas ainda muito frequentes são: escolas funcionando com estrutura precária (isso porque nossos templos são construídos visando acomodar o povo para as reuniões noturnas em um único salão; quase nunca se constrói um templo pensando em acomodar adequadamente as classes da EBD); e também problemas ligados à falta de preparo bíblico e teológico dos professores. Isso reflete negativamente no ânimo do povo.





Blog OCP: Muitos professores criticam as lições bíblicas, dizendo que são repetitivas. O senhor endossa a crítica ou entende que há certo exagero? 





Tiago Rosas: Bem, quanto a serem repetitivas não vejo isto um problema. A Bíblia também é muito repetitiva nalguns assuntos. Há, por exemplo, Salmos que são quase idênticos; há histórias que são narradas tanto em livros históricos como proféticos (veja a ameaça de Senaqueribe contra Israel); muito conteúdo dos Reis são repetidos nas Crônicas; há Provérbios que são idênticos a outros; e o que dizer dos evangelhos sinóticos? Mateus, Marcos e Lucas compartilham de algumas fontes e descrevem os mesmos fatos acerca de Cristo; Paulo mesmo reconhecia ser repetitivo em alguns assuntos, mas, dizia ele, “isso não é enfado para mim e é segurança para vocês”.





É preciso ressaltar ainda que é natural e até necessário que alguns assuntos se repitam, proporcionando ao professor oportunidade de aprofundar ainda mais os temas tratados. E não podemos nos esquecer que o que é repetitivo pra mim que estou há mais de quinze anos nos bancos da EBD, pode não ser repetitivo para um novo aluno, que se matriculou e começou a frequentar a EBD no trimestre passado. Portanto, precisamos ser sensatos e moderados em nossas críticas.





Blog OCP: Quando passou a se aprofundar na Teologia Pentecostal?





Tiago Rosas: Entre os anos 2007 e 2008, acompanhando Blogs como o do Ciro Zibordi e o do jovem teólogo pentecostal, talvez o de maior destaque no Brasil, Gutierres Siqueira. De lá pra cá, com o que eu chamo de “avivamento da literatura pentecostal” no Brasil, tem ficado cada vez mais indesculpável não conhecer e não entender a forma dos pentecostais entenderem e fazerem teologia.





Blog OCP: Em sua opinião, como está o Pentecostalismo brasileiro?





Tiago Rosas: Creio que o pentecostalismo está bem no aspecto da evangelização urbana e da implementação de igrejas cada vez mais perto do povo. Não creio que estejamos falhando no “Ide e pregai...”. O pentecostalismo nunca foi elitista e há uma barreira natural erigida pelo próprio povo pentecostal contra o elitismo social ou teológico. Entre os pentecostais se pode dizer sem medo: “O Espírito sopra onde quer”. Mas precisamos reforçar mais o “Fazei discípulos...”, isto é, fortalecer nossas bases bíblicas e teológicas e investir mais no discipulado do nosso povo, preparando-o não só para o serviço do Senhor em ambiente eclesiástico, para a obra de Deus no mundo (na família, na sociedade, no trabalho, na política). Creio que os pentecostais, no poder do Espírito, podem desencadear uma grande e profunda reforma espiritual nesse país, que leve-nos a superar esta cultura de violência, corrupção, vícios e sensualidade!





Blog OCP:  Quais são os maiores problemas do pentecostalismo brasileiro? 





Tiago Rosas: O erudito pentecostal Abraão de Almeida dizia que o maior problema da igreja é a ignorância. Acho que devo concordar. Ainda há muita ignorância acerca da Bíblia, da Teologia e da própria experiência pentecostal, e não digo nem entre o povo, mas entre lideranças. Infelizmente algumas lideranças parecem sofrer de preguicite aguda: não oram, não estudam a Bíblia, não se interessam sequer por um curso básico de teologia, são indispostos para leitura de bons livros. Infelizmente há líderes pentecostais que não leem nem a revistinha da Escola Dominical!





Essa ignorância inevitavelmente reflete: no aumento de modismos e heresias, na confusão entre barulho e unção, na escassez de conteúdo bíblico nas pregações e na recorrente má interpretação e manipulação das Escrituras, no abandono da Escola Dominical, na insegurança e confusão teológica de muitos membros, na frustração espiritual de muitos que dizem ter ouvido a voz de Deus quando era apenas um falso profeteiro mentindo, e ainda no crescimento dos “vendilhões da fé”, que saem nas igrejas e nas redes sociais vendendo oração e campanhas de vitória para os crentes ignorantes. Igrejas bem instruídas e doutrinadas na Palavra não toleram esses marginais! 





Blog OCP: O Pentecostalismo sofre muitos ataques. Há quem diga que ele é o principal problema do Evangelicalismo nacional. Em sua opinião, quais são as principais razões pelas quais o Pentecostalismo sofre tantos ataques? 





Tiago Rosas: Há muitos ataques injustos, fruto de pessoas que desconhecem nossa história, nossa teologia e a prática de culto de muitas – talvez a maioria – das igrejas verdadeiramente pentecostais. Têm se nivelado pentecostais por baixo, mas é preciso lembrar que o pentecostalismo é um movimento de renovação espiritual, e não uma denominação. Às vezes se toma uma frase de certo pregador pentecostal ou um trecho de um vídeo publicado nas redes sociais de um culto pentecostal, e a partir daí quer se tecer crítica ao pentecostalismo em geral. Isso não é justo. Que se critique aquele pregador ou aquela igreja, mas, a menos que aquilo seja um consenso entre os pentecostais, não deve o pentecostalismo receber a culpa, pois excessos, desmandos, ignorância e má interpretação da Bíblia estiveram presentes em toda história da Igreja e das igrejas!





Mas, por outro lado, não posso negar que os pentecostais por vezes se fazem merecedores desse julgamento, quando em nome de uma falsa espiritualidade se submetem a todo tipo de manifestação, algazarra e histeria coletiva. Como eu sempre digo, é muito “eu tô sentindo” para pouco “eu tô aprendendo”, e é muito “Abra a sua mão que eu vou profetizar” para pouco “abra a sua Bíblia que eu vou explicar”. Protesto contra isso em meu novo livro Poder, poder pentecostal. Veja que os pentecostais comprometidos com a Bíblia estão de olho e reprovando as falsificações!





Agora tenho que dizer: longe de ser “o principal problema do evangelicalismo nacional”, o pentecostalismo tem sido um baluarte na defesa da ortodoxia bíblica, das missões urbanas e transculturais, da ampla cooperação dos membros nas igrejas locais (levando a cabo o ensino protestante sobre o sacerdócio universal dos crentes), da experiência viva com o Espírito de poder, da democratização do ensino bíblico-teológico (veja que com todas as limitações, há Escolas Dominicais muito bem frequentadas pelo Brasil, a exemplo da igreja em que congrego, que é de médio porte, mas tem uma frequência média de 90 pessoas na EBD), dos bons costumes e, como li alhures, da mudança da nossa “paisagem social” brasileira.





Blog OCP:  O Pentecostalismo é uma cosmovisão ou se restringe à pneumatologia?





Tiago Rosas: O pentecostalismo não é uma cosmovisão nem uma doutrina específica. É um movimento de renovação espiritual, cujo estopim se deu no início do século passado, entre os estudantes do Seminário Betel, em Topeka, no estado norte-americano do Kansas, liderado por Charles Fox Paham. Porém, as raízes deste movimento espiritual atravessam a história, passando pelos Holiness, metodistas, reformadores, patrísticos e se iniciando em Jerusalém no dia de Pentecostes, onde de fato a igreja foi fundada no fogo do Espírito, que visivelmente pousava sobre a cabeça daqueles cento e vinte crentes reunidos em nome de Jesus.





O pentecostalismo pode compartilhar ou construir uma visão de mundo, bebendo das mais diversas matrizes teológicas que o constituem, e oferecer respostas quanto ao que é o homem, o que é a vida, o que é o casamento, a família, a sociedade, a natureza, a política, ética, moral, etc. E já há muitos teólogos pentecostais laborando nessas temáticas. Mas enquanto movimento de renovação espiritual, sua principal missão é trazer a igreja de volta à vida empoderada pelo Espírito para testemunho ousado de Cristo em todo mundo. Precisamos cuidar para que não tenhamos mais teóricos do pentecostalismo do que pentecostais de fato avivados pelo Espírito.





Blog OCP: O senhor acha que o Pentecostalismo é pouco explorado em nossas EBDs? 





Tiago Rosas: Olha, se pensarmos no currículo de Escola Dominical de editoras pentecostais como a CPAD, eu direi que na verdade o pentecostalismo é sempre explorado. Já não sei como se dá em outras igrejas que adotam currículo de outras editoras, especialmente não-pentecostais.





De quando em quando temos nos debruçado por um trimestre inteiro em assuntos que estão relacionados com a nossa história ou com a nossa doutrina (salvação, cura, dons espirituais, etc.).





Blog OCP: Quais são as obras que recomenda àqueles que querem entender a teologia Pentecostal?





Tiago Rosas: Sempre a Bíblia, antes de tudo, de preferência a Bíblia de Estudo Pentecostal (risos). Não creio em pentecostais não-biblificados! E também não creio num pentecostalismo de gabinete, que sabe tudo, mas vive nada. Eu não compraria perfume de quem não tivesse uma amostra grátis para me dar ou ao menos me permitir sentir o cheiro antes. Há muita gente escrevendo obras volumosas pretensamente pentecostais, mas você procura Cristo e o Espírito Santo nelas e, infelizmente, estas Pessoas ocupam menos espaço que as notas de rodapé! Quem começa estudando o que é ser pentecostal a partir da Bíblia, especialmente do livro de Atos dos Apóstolos, dos Evangelhos e das cartas paulinas, sentirá o mesmo que aqueles dois discípulos no caminho de Emaús enquanto Jesus falava as Escrituras: o coração ficará pegando fogo!





Feito esse dever de casa, os irmãos pentecostais deverão então se debruçar sobre obras relevantes em torno do tema. Mas atenção: não sugiro cair de cabeça na “teologia pentecostal” propriamente, embora seja muito chique falar em teologia pentecostal (que trata de método de interpretação e aplicação das Escrituras). Recomendo primeiro obras sobre espiritualidade pentecostal, história do movimento pentecostal, doutrina pentecostal e, só por último, teologia pentecostal propriamente. Dentre dezenas, recomendo: Fundamentos bíblicos de um genuíno avivamento, de Claudionor de Andrade; Vozes do Pentecoste, de Vinson Synan; A história do avivamento Azusa, de Frank Bartleman; Dicionário do Movimento Pentecostal, editado por Isael de Araújo; Os dons e o poder do Espírito Santo em ação, de Reinhard Bonnke; A doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento, de Stanley Horton; Conhecendo as doutrinas da Bíblia, de Myer Pearlman; As grandes doutrinas da Bíblia, de Raimundo de Oliveira; Escudo pentecostal, de Jefferson Rodrigues; Teologia Sistemática Pentecostal, editada por Stanley Horton; Teologia Sistemática Pentecostal, editada por Antônio Gilberto; Revestidos de poder: uma introdução à teologia pentecostal e O Espírito e a Palavra, ambas de Gutierres Siqueira; Pentecostalismo e pós-modernidade, de César Moisés de Carvalho, além de todos os livros publicados em língua portuguesa dos autores Robert Menzies (apontado pelos especialistas no assunto como o maior teólogo pentecostal vivo, do qual destaco a obra recém-lançada Glossolalia, pela editora Carisma, e a obra Pentecostes, essa é a nossa história, pela editora CPAD) e Roger Stronstad, que  participou da produção da Bíblia de Estudo Pentecostal, e já tem várias obras recentemente publicadas em língua portuguesa, entre as quais destaco Teologia Lucana sob exame. É muito importante para os pentecostais entenderem o papel do Espírito  Santo nas Escrituras e na Igreja, e certamente Lucas é o autor bíblico que mais descreve a atividade do Espírito. Por fim, recomendo todas as obras do teólogo carismático Craig Keener, um dos maiores especialistas em Novo Testamento em nossos dias.





Blog OCP: Fale sobre seu livro Poder, Poder Pentecostal





Tiago Rosas: Este livro lançado no formato e-book em novembro do ano passado e agora já disponibilizado na versão impressa é uma singela contribuição aos pentecostais brasileiros. Nele trato não de teologia pentecostal, mas de espiritualidade pentecostal, tomando a Bíblia como nossa base e recorrendo aos mestres do pentecostalismo como nosso referencial. Em Poder, poder pentecostal: reafirmando nossa doutrina e experiência à luz das Escrituras, eu discorro sobre algumas das principais doutrinas bíblicas que caracterizam e distinguem o pentecostalismo dos demais seguimentos evangélicos, bem como faço apontamentos do que é a verdadeira experiência pentecostal, que é dirigida pelo Espírito, em nome de Cristo para glória de Deus. Não escrevi apenas para instruir, mas para chamar meus leitores a crerem e viverem o verdadeiro poder pentecostal, sem o formalismo que caracteriza alguns grupos nem o fanatismo que caracteriza outros. 


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