Entrevista - Marlon Marques


Marlon Marques





Pastor da Igreja Metodista Livre; escritor das obras Salvação Integral: Salvação Pessoal e Social na Teologia de John Wesley e Arminianismo para a Vida; professor de teologia e de língua portuguesa.





Pastor Marlon Marques




Leia a íntegra da entrevista abaixo!





Blog OCP: Fale do livro que o senhor é um dos autores Igreja Reformada Sempre Reformando e de sua obra Salvação Integral.





Marlon Marques: É um livro que é extremamente relevante. Eu, Carlos Augusto Vailatti, Wellington Mariano, Thiago Titillo e o organizador da obra, Vinicius Couto, abordamos os Cinco Solas da Reforma Protestante no entendimento arminiano. O Vinicius Couto também aborda uma cosmovisão armínio-wesleyana na obra. Eu escrevi sobre Solus Chistus no pensamento de Armínio e de Wesley. Tem muitas muitas informações no livro que são pertinentes para um excelente entendimento sobre o cerne inabalável acerca do que se deve saber sobre a obra salvífica de Cristo, bem como expressar isso na sociedade.





Minha obra Salvação Integral - Salvação Pessoal e Social na Teologia de John Wesley, publicada pela editora Reflexão, aborda o pensamento de Wesley sobre a soteriologia, exalando o pensamento arminiano bem acentuadamente no primeiro capítulo. No segundo capítulo abordo acerca do pensamento de Wesley sobre a graça, em que destaco seus três momentos de atuação, a saber, graça preveniente, graça justificadora e graça santificadora (inteira santificação ou perfeição cristã). No último capítulo eu abordo o compromisso social de Wesley e da teologia wesleyano. Faço uma crítica ao Evangelho Social, à Teologia da Libertação e à Teologia da Missão Integral, realçando que o metodismo/wesleyanismo é o mais equilibrado no tocante à junção da ortodoxia cristã e prática da justiça social.





Blog OCP: A Teologia Wesleyana chega a ser uma cosmovisão?





Marlon Marques: Creio que sim, pois John Wesley escreveu vários ensaios sobre como os metodistas deveriam se portar perante os dilemas da sociedade. Ele era contra a escravidão, tendo até debatido sobre a escravidão, inclusive contra um grande filósofo chamado Dave Hume. Wesley era contra a escravidão e Hume era a favor. Ele encorajou o parlamentar britânico William Wilberforce para acabar com a escravidão. Aliás, a última carta de Wesley foi para Wilberforce sobre esse assunto. Wesley escreveu sobre a prática errada de direcionar produtos comestíveis que, ao invés de servir para alimento da população, era direcionado ou para alimentar cavalos ou para produzir bebidas alcoólicas. Wesley também escreveu sobre como se comportar diante de calamidades, como o terremoto em Lisboa (Portugal), que matou um grande número de pessoas. Wesley era contra o acúmulo desnecessário de dinheiro, pois tal acúmulo impedia o suprimento dos pobres e da obra missionária. Entretanto, Wesley era a favor da propriedade privada, mas sempre com a finalidade social, claro. Enfim, a teologia de Wesley era bem bíblica, devocional e prática.





Blog OCP: O senhor entende que é possível ser Wesleyano e Pentecostal?





Marlon Marques: Sim, pois, em seu nascedouro, todo pentecostal era wesleyano, haja vista todos terem crido na doutrina das três bênçãos (conversão, inteira santificação e batismo no Espírito Santo). Os pentecostais acrescentaram o Batismo no Espírito Santo e diferenciaram-no da inteira santificação. O Movimento se Santidade, de onde o pentecostalismo saiu, crê em duas bênçãos (conversão e inteira santificação), sendo que, geralmente, igualam inteira santificação ao batismo no Espírito Santo. Somente na segunda década do Movimento Pentecostal que houve uma divisão entre pentecostais holiness (wesleyanos) e pentecostais batísticos. Estes creem em duas bênçãos, não como o Movimento de Santidade. Os pentecostais batísticos, como as Assembleias de Deus, entendem as duas bênçãos como conversão e batismo no Espírito Santo, sem a inteira santificação. Pentecostais wesleyanos no Brasil são a Igreja Metodista Wesleyana e a Igreja de Deus no Brasil, dentre outras menores.





Blog OCP: O que pensa do Arminianismo no país?





Marlon Marques: Eu escrevi sobre o arminianismo no Brasil na obra organizada pelo meu amigo Vinicius Couto chamada Soberania Divina e Responsabilidade Humana: Ensaios sobre a Teologia Armínio-Wesleyana. Nesse mencionado capítulo, chamado Arminianismo Brasileiro na Atualidade: Uma Análise, abordo a trajetória do arminianismo no Brasil desde 2013, ano que foi publicada a obra magna, ao meu ver, sobre a teologia arminiana, chamada Teologia Arminiana - Mitos e Realidades. De lá para cá houve não somente muitas obras arminianas traduzidas, mas também muitas obras de autores brasileiros. Uma coisa é o arminianismo pré-2013 e outra coisa é o arminianismo a partir de 2013 no nosso país. Muitos que achavam que não eram arminianos começaram a se identificar como arminianos. Outros entenderam que o arminianismo não é nem pelagianismo nem semipelagianismo. Houve e há também muitos que eram monergistas e tornaram-se arminiano (conheço muitos neste caso).





Blog OCP: O senhor acha que a soteriologia arminiana tem sido bem ensinada?





Marlon Marques: Acredito que antes de 2013 o arminianismo foi pouco bem ensinado, haja vista, como salientei, ter havido uma escassez de obras em defesa do arminianismo (duas obras pouco conhecidas). Depois de 2013 o entendimento arminiano tornou-se mais conhecido. Há ainda, é certo, alguns que intitulam-se arminianos que ensinam o arminianismo de uma forma errada. Contudo, creio que sejam poucos.





Blog OCP: Quais são estas obras arminianas publicadas antes de 2013?





Marlon Marques: Introdução à Teologia Cristã escrito por Orton Wiley e Paul Culbertson e publicado pela CNP (Casa Nazarena de Publicações) e Fundamentos da Teologia Armínio-Wesleyana escrito pela Mildred Bangs Wynkoop e publicado também pela CNP.





Blog OCP: O senhor é professor. Os cristãos do Ensino Médio enfrentam muitos desafios a fé?





Marlon Marques: Sim, pois há professores, contrários à fé cristã, que querem incutir na cabeça dos adolescentes ideias naturalistas. Por causa justamente da superficialidade das igrejas por meio de pregações açucaradas de autoajuda e massagem do ego, sem profundidade doutrinária e apologética, os jovens, quando expostos a argumentos racionais, são levados ao naturalismo. A igreja peca em não prover ensinamentos doutrinários e apologéticos.





Blog OCP: Quais são as orientações que o senhor dá aos cristãos do Ensino Médio para não caírem nas ciladas relativistas?





Marlon Marques: Ter uma vida de oração e leitura meditativa das Escrituras, firmar-se muito na Tradição Cristã (conhecimento dos 5 Credos Ecumênicos da Igreja) e leitura de livros apologéticos (de defesa da fé cristã).





Blog OCP: O senhor entende que a relação do cristão brasileiro com a política é boa?





Marlon Marques: Não acho que seja boa. Como é sabido, sou de tradição metodista. Todo bom metodista é conservador na teologia e preza pela justiça social na sociedade. Infelizmente, muitos cristãos conservadores pensam que justiça social é de esquerda, mas não é. Em contrapartida, muitos nas igrejas evangélicas que pregam a justiça social são liberais/progressistas na teologia, o que é inadmissível. O equilíbrio faz-se necessário. Isto eu abordo tanto no meu livro Salvação Integral: Salvação Pessoal e Social na Teologia de John Wesley quanto no meu livro Arminianismo para a Vida (também pela editora Reflexão).





Blog OCP: O que pensa do Evangelicalismo nacional?





Marlon Marques: Muito aquém do que poderia ser. A falta de pregação expositiva e até mesmo de boas pregações temáticas e textuais, elaboradas adequadamente pelos pastores, faz com que o impacto da mensagem do Evangelho seja pequeno no nosso país. Quando se enfatiza menos doutrina e enfatiza-se mais encontros e grupos que trabalham mais o sentir-se bem e mensagens de auto-ajuda e pregações triunfalistas, vê-se que a mensagem racional, de absorção da razão das doutrinas fundamentais da fé cristã, é minimizada. E isto para o mal da igreja. Jamais se deve colocar a experiência acima das Escrituras. Estas, bem entendidas, guiam a experiência, que é inevitável, mas não vem em primeiro lugar.





Blog OCP: Quais são as maiores dificuldades dos pastores da Igreja brasileira?





Marlon Marques: A maior dificuldade nossa, como pastores, é termos um tempo considerável de leitura meditativa da Palavra e de oração. O pastor precisa disso para se fortalecer espiritualmente e fortalecer aqueles que estão perto dele, que são sua família, igreja e, se tiver uma profissão além do pastorado, também fortalecer seus colegas de trabalho. É necessário seguirmos a exortação de John Wesley a um de seus pregadores, chamado John Trembath: "Quer goste ou não, leia e ore diariamente. É para sua vida; não há outro caminho; caso contrário, você será, sempre, um frívolo, medíocre e superficial pregador."





Blog OCP: Fale-nos da Igreja Metodista Livre, denominação da qual o senhor é pastor.





Marlon Marques: A Igreja Metodista Livre é uma igreja do Movimento de Santidade, surgida em 1860 nos Estados Unidos. Somos uma denominação que preza pela teologia armínio-wesleyana, pela doutrina da inteira santificação e por um testemunho prático-social proclamando o Evangelho e  a Justiça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.





Blog OCP: As igrejas Metodistas (Livre, do Brasil, Wesleyana) têm muito diálogo?





Marlon Marques: Sim. Há no Brasil a Conexão Wesleyana de Santidade, onde há reunião de líderes das igrejas de tradição wesleyana.





Blog OCP: O que pensa do Movimento Pentecostal?





Marlon Marques: É um movimento muito pertinente e que há 120 anos tem revitalizado a Igreja de Cristo, influenciando tanto protestantes históricos como até mesmo a Igreja Católica Romana (vide o Movimento Católico Romano Carismático, bem forte no Brasil). O ethos pentecostal é bem impactante e notório no Brasil, pois não são poucos os que eram criminosos perigosos, por exemplo, e que mudaram totalmente de vida, transformando-se em pessoas que contribuem com o benefício da sociedade. Na evangelização, sobre pregar que Cristo morreu para salvar de uma vida eterna sem Deus, ninguém supera os pentecostais no nosso país.


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