Entrevista - A Soteriologia na relação entre Arminianismo e Pentecostalismo


Neste novo diálogo, o pastor Ediudson Fontes trata das raízes arminianas do movimento pentecostal, assunto abordado em seu novo livro, disponível na editora Reflexão.





Leia a primeira entrevista do pastor Ediudson Fontes clicando aqui, caso não tenha lido.







Terceiro livro do pastor Ediudson Fontes, A Soteriologia na Relação entre Arminianismo e Pentecostalismo.




Leia a entrevista!









Blog OCP: Qual é o objetivo desta obra?





Ediudson Fontes: Há uma mobilização das igrejas que se identificam como arminianas para conhecer suas raízes. Assim como alguns irmãos da Igreja Batista, a Igreja Nazareno, que pesquisa isso, e outras denominações, houve o despertamento na Assembleia de Deus por parte de alguns irmãos. Decidi me aprofundar na nossa identidade porque chegamos a um momento em que ela estava sendo um pouco desfigurada. Não falo do legalismo, que não faz parte da identidade Assembleiana, não é característica pentecostal – trato disso no livro. A Assembleia estava sendo influenciada pelo Calvinismo em várias áreas: soteriologia, escatologia, e até mesmo pneumatologia.





Precisava, urgentemente, de uma resposta. Precisávamos tratar disso. Vi uma reação na Assembleia assim como em outras igrejas: uma mobilização para defender a identidade por meio de palestras e livros.





Meu objetivo, com esta obra, é reforçar o trabalho que muitos estão realizando por estes meios. Porém, ela é mais específica, isto é, trato muito da relação entre o Movimento Pentecostal e o Arminianismo, diferentemente do outros autores que falam do Arminianismo de uma maneira geral sem se aprofundar tanto em um ponto. Assim como em meu segundo livro, em que me aprofundo na relação dos Cinco Solas e a Teologia Pentecostal, neste terceiro livro eu me aprofundo também em um tema específico: Pentecostalismo e Arminianismo.





Blog OCP: Quando teve a ideia de escrevê-la?





Ediudson Fontes: Quando assisti à palestra do pastor Carlos Augusto Vailatti em que ele fala da Declaração de Fé da Assembleia de Deus e a sua ligação com o Arminianismo. Isso despertou o interesse em me aprofundar no assunto, mas não de tratar especificamente da Declaração de Fé das Assembleias de Deus, e sim da Teologia Pentecostal. Entendi que o assunto deveria ser tratado de maneira mais extensa, isto é, mostrar as raízes arminianas do movimento Pentecostal. Diferentemente de meu primeiro livro, Panorama da Teologia Arminiana, que é uma introdução, falo de Armínio de uma maneira mais extensa. Falo dos remonstrantes, falo de Wesley e mostro as raízes do Metodismo; falo um pouco de John Fletcher, que tem posicionamentos bem semelhantes aos do Movimento Pentecostal, como o Dispensacionslismo. Mas Fletcher não é dispensacionalista clássico, ele entende que cada dispensação é uma Pessoa da Trindade. E vou mostrando como tudo isso reflete no Movimento Pentecostal.
Trabalho em cada ponto, cada capítulo, dentro da teologia Pentecostal e vou provando que, dentro de suas raízes, o pentecostalismo é arminiano.





Blog OCP: O senhor trata um pouco de dispensacionalismo nela?





Ediudson Fontes: Uma pequena informação que, nas raízes do Movimento Pentecostal, já existia uma inclinação para a visão escatológica dispensacionalista (um pouco do Dispensacionalismo clássico que os pentecostais defendem). John Fletcher, amigo de John Wesley, tinha uma visão dispensacionalista: ele entendia que cada dispensação é uma pessoa da Trindade que está em ação. Apesar da diferença dos pentecostais, a ênfase acerca da volta de Cristo e a visão pré-milenista são muito semelhantes às dos pentecostais. Embora o Dispensacionalismo clássico que conhecemos tenha sua origem entre teólogos calvinistas e cessacionistas, não vejo problemas nos pentecostais defenderem esse posicionamento. Mas, para muitos, isso não é coerente. Mas, quando descobrirmos que as raízes do Movimento Pentecostal já apontavam esse posicionamento, vejo como uma resposta aos seus críticos.





Blog OCP: Qual é o tipo de Arminianismo da Assembleia de Deus? Ele é diferente do Wesleyano e do clássico? Seria um tipo de "Arminianismo Assembleiano"?





Ediudson Fontes: Ela é clássica na sua maior parte. Mas existem pontos em que ela faz a dialética com a visão wesleyana.
Mas isso não faz dela uma igreja arminiana diferente do wesleyano e clássica. Ela é clássica na sua maior parte. Até porque as diferenças entre clássica e wesleyana, são pequenas, e não grandes. Não vejo nisso uma nova nomenclatura como "arminianismo pentecostal". Embora alguém poderia até desejar que houvesse essa nomenclatura, seria a meu ver sem necessidade. Eu afirmaria que a Assembleia de Deus é arminiana em sua abrangência, porque dialoga com as duas visões. Mas, se é preciso apontar no que se enquadra, seria clássica embora não totalmente.





Blog OCP: A AD é arminiana somente soteriologicamente ou há outros pontos em que a AD também vê como Jacó Armínio?





Ediudson Fontes: Só na soteriologia que a Assembleia de Deus é arminiana. Há pontos que Armínio defende que os pentecostais não defendem. Exemplo: Jacó Armínio era pedobatista, e os assembleianos são credobatistas, isto é, creem que o batismo é para idade da razão. Provavelmente Armínio era cessacionista (até porque o contexto em que estava inserido tinha essa inclinação), os assembleianos defendem a continuidade dos dons espirituais.
A proposta do meu terceiro livro é mostrar a visão soteriológica da teologia Pentecostal.





Blog OCP: Sua obra, então, é um aprofundamento da Teologia Pentecostal e Arminiana?





Ediudson Fontes: Sim. Diferente do meu primeiro livro, Panorama da Teologia Arminiana, que é uma introdução ao arminianismo, neste livro me aprofundo mais no arminianismo e faço uma ligação ao pentecostalismo. Apresento os cinco pontos do arminianismo e mostro que a teologia pentecostal está inserida.





Blog OCP: A AD é clássica, mas é possível ser Pentecostal e Wesleyano além da soteriologia?





Ediudson Fontes: Tudo é possível. Não digo especificamente a Assembleia de Deus. Mas existe igreja pentecostal que é wesleyana além da soteriologia. Podemos citar, por exemplo, a Igreja de Deus. É uma igreja pentecostal, mas a sua teologia tem os seus fundamentos na wesleyana. Aqui no Brasil, essa igreja não é muito conhecida, mas nos EUA ela é.





Blog OCP: O senhor entende que um pentecostal pode fazer confusão com o Batismo no Espírito Santo e a doutrina da perfeição cristã?





Ediudson Fontes: Creio que sim. O teólogo pentecostal Myer Pearlman, no seu livro Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, fala sobre a perfeição cristã. A Teologia Sistemática organizada pelo Stanley Horton trata desse assunto. Walter Brunelli, na sua sistemática Teologia para os Pentecostais, trata desse assunto desfazendo dos mitos de que Wesley é acusado. A perfeição cristã, no sentido bíblico, não é "perfeição intocável", no sentido de que nunca mais vai pecar. A palavra perfeição que a Bíblia faz menção significa maturidade. Vale ressaltar que esse assunto é o ponto forte da Teologia Armínio-Wesleyana. A Assembleia de Deus daqui do Brasil não defende esse posicionamento, mas nada impede que encontremos alguns pentecostais que defendam. Isso não deveria ser encarado como algo anormal. Se temos assembleianos que defendem o calvinismo, que historicamente não tem uma ligação, por que tratar um pentecostal que defende a perfeição cristã como uma certa estranheza?





Blog OCP: Em qual sentido o senhor entende que as AD é Wesleyana?





Ediudson Fontes: Eu me refiro às suas raízes. Por mais que os fundadores da Assembleia de Deus fossem batistas e não tivessem contato direto com a Rua Azuza, eles estiveram com o William Durham, que foi vice do William Symour. Então, de uma forma indireta, a igreja da Rua Azusa tem a sua influência. E vale aqui lembrar que a Igreja Apostólica da Fé que o Seymour liderou foi o ponto de referência para outras igrejas buscarem o revestimento de poder. Seymour era do movimento santidade (holiness), foi aluno do Charles Fox Paham, que era de uma igreja Metodista.
John Fletcher, amigo de Wesley, tinha posicionamento diferente do fundador do metodismo. Tinha pontos muito semelhante aos que os pentecostais defendem. Em outras palavras, John Fletcher tinha o posicionamento que iria refletir mais na frente nos pentecostais.
Sobre os pentecostais brasileiros, mesmo não tendo contato direto com os pentecostais da Rua Azusa, tiveram contato com outros teólogos pentecostais americanos (pessoalmente ou pela escrita), e, de uma forma indireta, obtiveram uma certa influência da Azusa Street.





Blog OCP: O Pentecostalismo tem raízes arminianas. Nesta obra o senhor mostra isso. Pode-se dizer, portanto, que não existe pentecostal calvinista?





Ediudson Fontes: Não é que um irmão não possa ser calvinista pentecostal, até porque já há em nosso meio. Mas, historicamente falando, o arminianismo está tão atrelado ao pentecostalismo, que não tem como negar isso. Os pentecostais calvinistas não são inferiores por causa disso. Mas eles têm de reconhecer que o arminianismo está na raiz do Movimento Pentecostal. Se eles respeitassem essas raízes, creio que existiria menos problemas. Mas, infelizmente, alguns pentecostais calvinistas, por desconhecerem as raízes (ou até as conhecem, mas simplesmente desfazem delas), dizem que os pentecostais só têm duas coisas boas (evangelismo e a pneumologia). O restante simplesmente é omitido.
Os calvinistas que são pentecostais têm o direito de serem calvinistas, mas não respeitar as raízes pentecostais é, de fato, uma postura deselegante e desonesta.
Os pentecostais têm uma herança muito rica. Não precisa beber a fonte dita reformada para ter uma identidade forte. A própria história do Movimento Pentecostal já oferece essa identidade. Não estou aqui afirmando que não podemos ler obras de viés reformado. Não é isso que está em questão. Eu estou afirmando que os pentecostais que querem fortalecer a sua raiz têm de olhar para a própria raiz. Precisamos trabalhar a nossa identidade. Podemos dialogar com as outras tradições teológicas em pontos que corroboramos. Agora, afirmar que os pentecostais não têm uma identidade e fundamento teológico, e só os reformados que os possuem, é um grande equívoco.


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