Diálogos - Douglas Ferreira


Douglas Ferreira é licenciado e pós-graduado em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (CEUCLAR).  Pós-graduado em Ensino Religioso pela Faculdade Unida de Vitória (FUV) e Pós-graduado em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP





Professor Douglas Ferreira




Blog OCP: Quando surgiu o interesse em fazer filosofia?





Douglas Ferreira: O meu interesse está diretamente relacionado a minha primeira formação – que foi o bacharelado em teologia. Já nos primeiros semestres do curso teológico, me identifiquei com as disciplinas de teologia sistemática. Com destaque especial para a soteriologia.  Eu adorava ler os livros de teologia sistemática. E na minha época de formação – 2003 – a maioria dos livros de teologia sistemática do seminário era de orientação calvinista. 





Quando me formei, senti uma necessidade de um maior aprofundamento de questões que os professores e os livros de teologia só abordavam de forma geral. A filosofia foi –  para mim – um caminho natural. 





Blog OCP: O amado vê muita má influência de professores de filosofia no ensino médio?





Douglas Ferreira: Não, não vejo.  E explico o motivo. Como já fui professor da rede estadual de ensino no Estado de São Paulo, tive acesso ao material em que se fundamenta os bimestres da disciplina de filosofia.  Os professores têm aproximadamente 45 minutos de aula por série. Os conteúdos dos livros são generalistas. Eu até afirmo que eles não ensinam filosofia stricto sensus. O que se faz no ensino fundamental e médio, em relação ao ensino de filosofia, é uma instrumentalização do ensino de filosofia com uma abordagem voltada para ensinar questões de cidadania.  Em que pese os prós e contras desse tipo de abordagem – eu no caso, sou contra -, os alunos não têm acesso a filosofia de fato. 





Agora, é claro, os professores de filosofia, assim como de qualquer outra disciplina, têm suas inclinações políticas-partidárias, mas não se pode generalizar a partir de eventos pontuais uma espécie de teoria de doutrinação – algo muito comum em nossos dias. 





Blog OCP: Fala-se muito de professores de filosofia nas Universidades que buscam converter alunos ao ateísmo. Você enfrentou isso?





Douglas Ferreira: Penso haver um pouco de desinformação nesse sentido. O grande problema é o risco de se tomar a opinião do senso comum como verdadeira sem nenhuma avalição crítica. Parece haver uma série de outras pressuposições nessa pergunta, mas eu vou tentar responder de forma mais global. 





Os professores, no ambiente universitário, não têm compromissos – ou não deveriam ter – dogmáticos. O que significa que o professor vai tratar as questões da filosofia com critérios analíticos se utilizando de referencial teórico. A questão é que nem sempre essa análise e suas conclusões são convergentes com questões de fé. Nesse caso, se há alguma responsabilidade, é muito mais da igreja e/ou indivíduo do que com o professor. Se assumirmos que um cristão é vítima de um professor universitário por exposições de correntes ateítas, com isso, estamos dizendo que o indivíduo falhou em sua instrução pessoal e a igreja na sua responsabilidade comunitária de ensino, orientação e aconselhamento. E mais, que as bases cristãs dessa pessoa X são extremamente frágeis. Eu não rebaixaria os fundamentos do cristianismo e nem a pessoa do Espírito Santo dessa forma. Jesus fala do ministério do Espírito Santo em ensinar e lembrar toda verdade (Jo 14:26) assim como guiar e conduzir (Jo 16:13).





Respondendo de forma pessoal – não, eu nunca passei por uma tentativa de proselitismo no ambiente universitário. 





Blog OCP: Qual orientação dá aos irmãos para não se contaminarem com o liberalismo teológico encontrado nas universidades? 





Douglas Ferreira: O liberalismo teológico está aí. É um fato dado. Digo isso no sentido de constatar o fenômeno. Esse perigo, embora não exclusivo, está mais próximo das tradições reformadas. Até porque ele nasceu e teve seu maior alcance nelas. Como pentecostal, penso existir uma barreira maior ao avanço do liberalismo teológico. Explico: um pentecostal, por definição, não crê que os eventos narrados na bíblia pertencem apenas a uma categoria histórica. O pentecostal entende – parafraseando Menzies – que as histórias que estão na bíblia são nossas histórias. O que isso significa? De forma hiper resumida, que os milagres podem e acontecem nos dias de hoje. Dessa forma, a crença nas operações carismáticas do Espírito Santo são uma barreira “natural” ao liberalismo teológico. 





Eu diria que o “quadrilátero” pentecostal – Jesus salva, cura, batiza com o Espírito Santo e leva para o céu – é uma boa resposta ao liberalismo; o forte compromisso com a bíblia e a urgência missionária também. 





Blog OCP: O irmão, diferentemente de muitos cristãos, tem uma visão política mais à esquerda. Isso tem relação com a filosofia. 





Douglas Ferreira: Não. A filosofia é uma disciplina que tem por objetivo o uso da razão para análise conceitual. Há filósofos de esquerda e de direita. 





Blog OCP: Como vê a Esquerda brasileira atualmente?





Douglas Ferreira: A esquerda brasileira passa por uma crise ética – no caso do lulo-petismo – e de propostas mais positivas para o cenário político nacional.  No meu caso, eu defendo mais a agenda econômica da esquerda. Penso que o estado deve mediar as relações de conflito sempre em favor do lado de menor poder político-econômico. Não acredito em autorregulação do Estado. A ideia de ausência do Estado (grosso modo) ou Estado mínimo só tem um resultado: privatização do lucro e socialização do prejuízo. 





Blog OCP: O irmão é um dos grandes arminianos de nosso país. Como vê a teologia arminiana no Brasil?





Douglas Ferreira: Hoje, muito melhor que ontem. Tivemos uma fase de apresentação da teologia arminiana a igreja brasileira. Em um segundo momento deu-se início as publicações de livros de teologia arminiana nos seguimentos de teologia bíblica, histórica, biográfica, filosófica etc... E a projeção é que a teologia arminiana passe a ser mais conhecida da igreja brasileira com o tempo. 





Blog OCP: Como classifica o crescimento da literatura arminiana em nosso país?





Douglas Ferreira: A literatura arminiana está crescendo de forma contínua e consistente. Mais livros estão sendo publicados e o interesse do público também cresceu. Hoje temos mais editoras publicando livros de teologia arminiana tais como: Ed. Reflexão, Ed. Sal Cultural, Ed. CAPAD e Ed. Carisma e Ed. Verbum. 





As informações que temos é que muita literatura de alta qualidade está por vir. Vamos esperar. 





Blog OCP: Qual é a relação entre o arminianismo e a vida?





Douglas Ferreira: Nossas crenças influenciam diretamente nossos valores e práticas. A teologia arminiana representa essa perspectiva teológica com essa aplicação possível ao mundo real. A teologia arminiana produziu seus primeiros bons frutos logo em seu início. Grothius, um arminiano, foi responsável pela formulação do primeiro tratado de direito internacional. Na Europa, o arminianismo influenciou movimentos humanitários. Com Wesley, o arminianismo [de viés wesleyano] foi responsável por transformações diretas nas questões dos pobres, no fim do regime escravagista inglês do século 19. Por fim, o wesleyanismo [arminiano] teve impacto no pentecostalismo que é um dos maiores fenômenos cristão do século 20.





Blog OCP: Voltando à filosofia, pode nos recomendar alguns bons filósofos cristãos?





Douglas Ferreira: Aproveitando a pergunta, vou indicar alguns livros úteis de filósofos cristãos. Desse modo, mais do que conhecer alguns nomes, o público poderá conhecer alguns bons títulos; 





Nível Básico: 





BOCCHINO, Peter; GEISLER. Norman, Fundamentos Inabaláveis, ed Vida.





FEINBERG, Paul D; GEISLER, Norman, Introdução à Filosofia, ed Vida Nova.





GEILSER, Norman, Ética – opções e questões contemporâneas, ed Vida Nova.





J. P. MORELAND, Racionalidade da Fé Cristã: Argumentos para Defendê-la, ed Hagnos.





Nível Avançado:





INWAGEN, Peter van, O Problema do Mal, ed UNB. 





ALSTON, William, Percebendo Deus, ed Carisma.





PLANTINGA, Alvin, Deus, a Liberdade e o Mal, ed Vida Nova.





Blog OCP: Fale da relação entre soteriologia e filosofia. 





Douglas Ferreira: A soteriologia como uma disciplina da teologia sistemática, busca compreender a forma como a salvação é aplicada na vida do crente. Para tal empreendimento, os teólogos precisam definir e discutir conceitos de natureza abstratos. Esses conceitos abstratos precisam de uma forma rigorosa em sua formulação, e é nesse caso, que entra a filosofia. 





A filosofia ajuda o teólogo cristão a pensar de forma metódica, rigorosa e sistemática. Por meio da filosofia o teólogo pode refinar suas formulações teológicas, evitar ambiguidades e escapar dos raciocínios falaciosos. 





Embora se tenha uma ideia popular de que a filosofia seria um empecilho a fé cristã, na verdade, a filosofia sempre esteve presente  na historia do cristianismo e auxiliando os teólogos em relação aos conteúdos de fé. 


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