Diálogos - Kleber Maia


Biografia





Carlos Kleber Maia é pastor assembleiano, casado com Dione e pai de Álvaro e Diana. Especialista em Teologia do Novo Testamento Aplicada pela Faculdade Teológica Batista do Paraná e Mestre em Teologia pelas Faculdades Batista do Paraná, com ênfase em Estudo e Ensino da Bíblia. Exerce o ministério pastoral desde 1999, em diversas congregações da AD em Natal/RN e, desde 2015, em Galinhos/RN. Foi professor na Escola de Teologia da AD em Parnamirim (ETAP) e na Escola de Teologia da AD em Natal (ESTEADEB), em diversas disciplinas de Teologia Sistemática e Teologia Bíblica. É autor dos livros Doutrina Prática, A Bíblia e o Trabalho e Depravação Total, além de diversos artigos publicados em jornais e revistas. Desde 2014 mantém um canal no YouTube (Graça e Poder), onde são publicados vídeos com variados temas da doutrina cristã.





Pastor Kleber Maia




Blog OCP: Pastor, o que é depravação total?





Kleber Maia: É um conceito teológico que aponta para a total inabilidade do ser humano, após a Queda, de realizar qualquer bem espiritual e de buscar e agradar a Deus.





Dizer que as pessoas estão em depravação total não implica em afirmar que eles são tão pecadores quanto elas poderiam ser, mas que elas estão num estado espiritual no qual: a) todos os indivíduos estão mortos espiritualmente; b) todas as partes do ser humano estão comprometidas pelo pecado: corpo, alma e espírito; c) tudo o que as pessoas fazem está maculado pelo pecado e não lhes traz qualquer merecimento para com Deus.





O termo não é muito usual, de forma que algumas pessoas se assustam quando o leem na capa de um livro, e até imaginam outra coisa bem diferente sobre o seu significado.





Quando eu estava escrevendo o livro sobre o assunto, um adolescente da minha igreja viu meu notebook ligado e leu na área de trabalho o nome da pasta onde eu estava guardava os arquivos, e perguntou espantado: “O que é isto, pastor?”. Parece muito estranho, um pastor ter uma pasta com este título em seu computador, mas todos os cristãos deveriam conhecer esta depravação total.





Blog OCP: Qual é a importância de aprender o que é a Depravação Total? 





Kleber Maia: É muito importante, para que as pessoas entendam que o estado espiritual do ser humano é extremamente negativo, e que se não for pela graça de Deus, nenhum indivíduo poderá se salvar.





Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o arminianismo sustenta uma antropologia (doutrina acerca do ser humano) negativa, contrastada por uma soteriologia (doutrina da salvação) positiva, afirmando que nenhum ser humano pode fazer algo para se salvar ou alcançar o favor de Deus, mas, também, que Deus enviou Seu Filho ao mundo para oferecer salvação a todos e salvar todo aquele que crer.





Sem esta percepção dos efeitos da Queda sobre a realidade espiritual dos indivíduos, alguém poderia acreditar que pode tomar a iniciativa de buscar a Deus, ou crer que pode cumprir certas condições e merecer a salvação ou, ainda, pensar que as pessoas são boas e apenas são maculadas pelo meio em que vivem.





A doutrina da depravação humana é abundantemente apresentada nas Escrituras, o que deveria despertar o interesse em todos os cristãos e mesmo em todas as pessoas, em buscar conhecer o verdadeiro estado espiritual do homem que não foi regenerado por Jesus.





Blog OCP: Os cristãos, de maneira geral, a entendem?





Kleber Maia: Infelizmente, não. Ainda há muitas pessoas que se denominam cristãos, de diversas denominações e tradições, que pensam que podem se salvar através de seus esforços, ou que podem dar ao menos o primeiro passo em direção a Deus, ou, ainda, que a salvação depende do que o homem pode fazer.





Muitas pessoas que pertencem a uma tradição cristã creem que “Deus não deixará de dar graça àquele que se esforçar para merecê-la”. Este conceito não é arminiano, mas está de acordo com o pensamento semiagostiniano (também conhecido como semipelagiano), que sustenta que o indivíduo pode “dar um passo para Deus, que Ele dará outro em sua direção”.





Diferentemente do muitos pensam, arminianos e calvinistas têm muito em comum no entendimento desta doutrina; ambos os grupos acreditam que o homem está morto no pecado, em estado de total incapacidade de buscar a Deus ou de merecer a salvação. A grande divergência, nesta doutrina, está na causa da Queda do primeiro casal; os calvinistas afirmam que foi por decreto de Deus, enquanto o arminianos ensinam que foi por mau uso da liberdade que Deus deu a eles.





Blog OCP: Em sua opinião, as heresias e os equívocos teológicos tem ligação com a falta de conhecimento desta doutrina?





Kleber Maia: Sim. Armínio já dizia que “o significado equivocado sempre é a mãe do erro, e isso deve ser cuidadosamente evitado”. A falta de conhecimento leva a crenças enganosas, que conduzem a comportamentos equivocados.





Se alguém entende, contrariamente ao que ensina as Escrituras, que pode salvar-se por seu esforço, irá valorizar as obras como um meio de merecer sua entrada no céu, o que a levará ao legalismo e ao ativismo cristão alheio à graça divina.





Por outro lado, um indivíduo crê que está incluso no grupo daqueles que serão salvos independentemente de sua fé e fidelidade, pode estar falsamente seguro de uma salvação que ele não sabe se alcançou.





Em todos os casos, o equívoco nasce de uma compreensão equivocada da verdadeira doutrina bíblica.





Blog OCP: Como combater os males presentes no Evangelicalismo nacional? 





Kleber Maia: O ensino bíblico e teológico sério, comprometido com a inerrância bíblica e voltado à formação de discípulos sadios e com um caráter cristão genuíno é o caminho para se formar uma igreja sólida e equilibrada.





Na contramão desta via equilibrada, muitas igrejas têm investido apenas em atrair multidões, que são alimentadas com promessas de prosperidade material ou com o mero sentimentalismo no culto. É como alimentar uma criança com doces e guloseimas, e querer que ela cresça sadia e com um sistema imunológico capaz de evitar as doenças.





Igualmente, a oração e a busca pelo poder e capacitação do Espírito Santo é fundamental para o crescimento e fortalecimento da igreja. Algumas igrejas se parecem mais com clubes, onde você tem diversos programas, todos mantidos pelo esforço e pela técnica humana. Porém, a igreja que pertence a Cristo cresce pelo poder de Deus, que usa simples instrumentos de carne e osso, sem méritos ou capacidade própria.





Blog OCP: A maioria dos cristãos não confunde arminianismo com semipelagianismo ou o senhor entende que a confusão ainda é comum?





Kleber Maia: Este é um equívoco muito comum, embora a maioria das pessoas que o comete não esteja, necessariamente, consciente do que está fazendo, ou seja conhecedora dos conceitos que estão envolvidos nesta sua prática.





Muitos cristãos foram ensinados que o pecador precisa (e pode) “dar um passo para Jesus”, ou até proclamam, na hora do apelo evangelístico: “só depende de você!”, e não se apercebem que estão ensinando algo contrário às verdades bíblicas e ao pensamento teológico de sua própria tradição.





Por causa disto, há muitos “espantalhos” que são anunciados como sendo teologia arminiana e que são, na verdade, heresias que nós não sustentamos, mas que são anunciadas em muitos púlpitos, por falta de um conhecimento adequado da verdadeira doutrina que professamos.





Ainda hoje, muitos livros e muitos artigos publicados nas revistas teológicas e na mídia descrevem a soteriologia arminiana em termos que não estão de acordo com a sua verdadeira posição. Há, ainda, muito desconhecimento e, talvez, até alguma desonestidade intelectual, por parte de muitos opositores do arminianismo, que não se dão ao trabalho de conhecer antes de julgar, e erram em apontar erros que não existem.





Blog OCP: Em sua opinião, como está o Arminianismo no país?





Kleber Maia: Acredito que estamos experimentando um crescimento no interesse e no aprofundamento de estudos desta teologia tão presente na igreja brasileira, mas, até alguns anos atrás, tão ausente dos seminários teológicos e dos debates sérios.





Com o crescimento do interesse, cresceu a procura e a oferta de bons livros de teologia que apresentem a teologia arminiana clássica e wesleyana de maneira justa e coerente.





Com isto, os arminianos têm muito mais recursos para se envolver em debates, para produzir literatura e para desfazer estes equívocos tão fortemente sustentados pelo desconhecimento do verdadeiro arminianismo, tanto por parte de seus defensores, como de seus antagonistas.





Muitos seminários arminianos dispõem, agora, de excelente literatura e de diversos vídeos que são usados para preparar uma nova geração de cristãos mais conscientes de sua própria tradição teológica.





Em muitas cidades, espalhadas por todo o território nacional, os seminários e as palestras que tratam de temas da soteriologia arminiana têm sido promovidos por denominações pentecostais e históricas, o que contribui para a solidificação da teologia arminiana entre os crentes, de uma maneira geral.





Blog OCP: Como o pastor classifica o crescimento da literatura arminiana no Brasil?





Kleber Maia: Desde o ano de 2015, quando foi lançada a obra Teologia Arminiana – mitos e realidades, do Dr. Roger Olson (que eu tive a honra de recomendar para a editora), a produção de literatura que trata da teologia armínio-wesleyana tem crescido exponencialmente. Hoje, pela graça de Deus, temos diversas editoras que estão lançando obras clássicas e outras de autores nacionais de excelente qualidade, municiando os arminianos com excelentes ferramentas para um maior entendimento desta tradição.





Ainda há muito a ser alcançado, ainda há outras áreas da teologia de Jacó Armínio e de John Wesley, para citar os grandes expoentes desta tradição, que precisam ser estudados e ensinados, mas estamos avançando consistentemente.





Nos dias atuais, muitos termos e conceitos teológicos, como “expiação ilimitada” ou “depravação total”, que eram totalmente desconhecidos do público evangélico, são estão presentes em rodas de conversas sobre teologia compostas por jovens e adolescentes cristãos. Creio que isto é fruto deste crescimento do interesse e da oferta de boa literatura arminiana, que temos experimentado no Brasil.





Blog OCP: Além de sua obra, Depravação Total, o senhor recomenda mais algum livro para compreender esta doutrina?





Kleber Maia: A lista de bons livros arminianos é longa, no momento atual, pela graça de Deus. Mas eu gostaria de recomendar aos que desejam aprofundar-se neste tema da teologia arminiana, as obras do teólogo brasileiro Vinícius Couto e do americano Dave Hunt. Há muitas outras obras que tratam do tema, mas algumas dedicam um espaço maior para explicar a condição do homem após a Queda, e as consequências da sua desobediência.





Blog OCP: Fale sobre sua obra pela editora Reflexão.





Kleber Maia: O livro Depravação Total foi o segundo a ser lançado, como parte da coleção Arminianismo, uma série de livros introdutórios à teologia arminiana. Tenho a honra de pertencer, imerecidamente, a este grupo que produziu estas obras essenciais para o entendimento e a propagação do arminianismo. Creio que a série foi responsável por esclarecer muita gente e despertar grande interesse em outros, para a doutrina da salvação.





Por se tratar de um livro que tem este propósito prolegômenos, de introduzir o assunto, não havia espaço para discussões mais aprofundadas, pois o propósito é apenas apresentar o pensamento arminiano acerca do tema da inabilidade espiritual do ser humano.





Para empreender esta tarefa, utilizei-me apenas de escritos de teólogos arminianos, desde Jacó Armínio, passando pelos continuadores da sua teologia, os remonstrantes e chegando a João Wesley e os teólogos hodiernos. A linguagem deveria ser acessível aos leigos, sem deixar de utilizar os termos teológicos adequados, e penso que o propósito para a obra foi razoavelmente alcançado.


Comentários

  1. Meu nobre amigo e irmão Pr Kleber a cada dia ao ver o seu crescimento maduro, tanto no espiritual, quanto na hermenêutica bíblica. Observo que sempre haverá remanescentes em meio a metamorfose existente em que passa a interpretação bíblica.

    ResponderExcluir

Postar um comentário