Diálogos - Luís Felipe Borduam
Biografia
Luis Felipe Nunes Borduam é pastor titular na Igreja do Nazareno Central de Nova Iguaçu no Rio de Janeiro.
Bacharel em administração e teologia, pós-graduado em Gestão de Projetos e pós-graduando em Ciências da Religião.
Coordenador do Seminário Teológico Nazareno do Brasil (STNB) no polo de Nova Iguaçu/RJ e membro fundador do NEW - Núcleo de Estudos Wesleyanos.

Blog OCP: Conte um pouco da história da igreja do Nazareno
Luís Felipe Borduam: A Igreja do Nazareno é fruto da união de igrejas do Movimento Wesleyano de Santidade do século XIX nos EUA. Tem como data oficial de fundação o dia 13/10/1908, todavia muitas das igrejas que se uniram para formar a nova denominação já existiam desde o século anterior. É uma igreja de teologia e tradição armínio-wesleyana que tem como ênfase a doutrina wesleyana de santidade que crê que é possível viver uma vida santa e reta diante de Deus mediante o poder purificador do Espírito Santo. O Movimento Wesleyano de Santidade é o precursor do Movimento Pentecostal que viria depois com William Seymour. A Igreja do Nazareno tem uma forma de governo representativa, onde clérigos e leigos dividem a responsabilidade pela gestão da igreja nos três níveis de atuação, a saber: Global, Distrital e Local. Atualmente está em 163 países e possui mais de 2,6 milhões de membros ao redor do mundo.
Blog OCP: Fale sobre a relação da igreja do Nazareno com a teologia.
Luís Felipe Borduam: A Igreja do Nazareno como uma instituição de herança armínio-wesleyana sempre carregou em seu DNA a unidade da relação entre ortodoxia e ortopraxia. O tripé de ação da igreja do Nazareno em qualquer parte do mundo que atue é evangelismo, ministério de compaixão e educação. Se você tira um desses itens você descaracteriza uma Igreja do Nazareno. Portanto, o estudo teológico e a relação com a educação em geral sempre foram uma marca de nossa igreja tendo diversas universidades e escolas de vários níveis ao redor do mundo. Umas das características também sempre foi o irenismo e equilíbrio na relação com outros grupos cristãos e a teologia. A Igreja do Nazareno sempre teve certa facilidade, em comparação a outras igrejas, na interação seja com tradicionais ou pentecostais, até por ser fruto de união de igrejas e não de divisão. Isso se fundiu também na teologia, onde a Igreja dialogou sem ceder com o liberalismo, assim como, evitou os extremos do fundamentalismo que em gerações posteriores terminou por ter uma perspectiva alienante do cristão em relação a cultura e ao estudo teológico. A teologia na Igreja do Nazareno, portanto, é como um combustível essencial que reafirma nossa identidade e missão de fazer discípulos a imagem de Cristo nas Nações e aprimora sempre nossa prática cristã.
Blog OCP: Os irmãos da igreja do Nazareno têm um bom conhecimento da Teologia Arminiana?
Luís Felipe Borduam: A Igreja do Nazareno no mundo é reconhecida como uma instituição que de fato e verdade defende, propaga e tem um compromisso com a teologia armínio-wesleyana. Cheguei a ouvir de grandes líderes da Igreja Metodista seja a do Brasil ou a Metodista Wesleyana que a Igreja do Nazareno tem superado até o Metodismo em seu compromisso com a fidelidade no ensino e ênfase nessa teologia e herança wesleyana. No Brasil reconheço que a Igreja do Nazareno tem resgatado mais essa missão de alguns anos para cá com a alavancagem do tema arminianismo e ainda estamos muito aquém do que gostaríamos e precisamos, mas nós sempre disponibilizamos clássicos de nossa literatura mundial como o livro da Mildred Bangs Wynkoop, “Fundamentos da Teologia Armínio-Wesleyana” pela editora NazaLivros (antiga CNP), “Introdução a Teologia Cristã” de Henry Orton Wiley” e outros que tratam de forma bem acessível sobre o assunto. Ainda temos um trabalho hercúleo para fazer seja na produção de novas literaturas com linguagem mais abrasileirada ou latino-americanizada, assim como, a tradução de grandes clássicos da teologia wesleyana que ainda não temos em português, contudo percebo os membros ano após ano mais conscientes de nossa tradição e teologia e de sua relevância.
Blog OCP: Em sua opinião, como está o arminianismo em nosso país?
Luís Felipe Borduam: Creio que conseguimos solidificar os fundamentos. Os mitos e caricaturas sobre as bases do arminianismo foram todas expostas e é mais difícil que as “fake news” continuem sendo utilizadas para enganar incautos e arrebatar prosélitos para outras correntes teológicas. Entretanto, precisamos desdobrar o arminianismo, seja ele clássico ou wesleyano, para outras áreas da teologia e da prática cristã. Fico feliz em ver que já temos uma série de arminianos se desdobrando nessa direção. Ainda falta mais apoio institucional das Igrejas, editoras e afins de tradição arminiana e wesleyana que estão no geral perdendo a oportunidade de investir em uma juventude séria que tem com muita dor e sacrifício tem investido do próprio bolso para o resgate da identidade histórica e teológica de suas tradições, igrejas e fé. Aplicando as Escrituras nessa situação: as pedras estão clamando (Lc.19:40). Fomos muito mais longe do que poderíamos imaginar na época que era apenas um grupo arminiano que se tornou em um movimento de grande impacto, mas temos muito no que avançar ainda.
Blog OCP: O problema do Evangelicalismo Brasileiro é o Semipelagianismo e até o pelagianismo, doutrinas que não são o arminianismo?
Luís Felipe Borduam: Sabemos por observação e experiência que no pensamento e prática do cristianismo brasileiro, principalmente entre o laicato e muitas lideranças neopentecostais o semipelagianismo ou mesmo o pelagianismo são recorrentes. As igrejas pentecostais históricas já têm trabalhado, ainda que um pouco timidamente, o resgate da origem arminiana e corrigindo a tendência semipelagiana. O avanço no debate soteriológico nas redes sociais, na literatura e eventos tem municiado as igrejas, ainda que, acredito que elas deveriam ser um instrumento fomentador, mais propositivo do que reativo. Todavia, no meu entender, o semipelagianismo está longe de ser o principal problema do evangelicalismo brasileiro. Creio que a ênfase no “poder”, nos dons espirituais sem o compromisso com a santidade bíblica que pouco tem a ver com usos e costumes, a desidratação da importância nas obras de misericórdia (sociais) e a dicotomização entre ortodoxia e ortopraxia, isto é, entre teoria e prática tem minado o testemunho cristão e as transformações que historicamente o movimento arminio-wesleyano que desemboca no pentecostalismo gerou. Temos um número enorme de “cristãos” no Brasil e ao mesmo tempo o impacto real é pífio em relação ao que deveria ser. Só comparar com o wesleyanismo do século XVIII e XIX e o início do pentecostalismo que geraram mudanças incomensuráveis. Não entrarei nem no mérito do neo e hiperpentecostalismo, mas entendo que temos que resgatar a unidade entre santidade e poder e entre fé e boas obras. Essa separação é um grande problema que temos que resolver internamente para não ficarmos só a jogar a culpa no neopentecostalismo ou no caso da pergunta, no mal entendimento soteriológico.
Blog OCP: Tendo a grande maioria das igrejas brasileiras um viés arminiano, como fazer com que os membros das igrejas verdadeiramente conheçam o arminianismo?
Luís Felipe Borduam: As igrejas e seus líderes devem ser os primeiros a estudarem e fomentarem esse tema. Entenderem a importância de resgatarem suas identidades teológicas se querem ter raiz e não permitir que seus membros sejam levados por qualquer vento de doutrina (Ef.4:14). Muito tem sido feito extramuros, mas é hora das instituições, sejam igrejas, editoras e correlatas dessa tradição se despertarem, investirem e abrirem espaço para quem está produzindo.
Blog OCP: Qual é a relação entre a teologia Wesleyana e a vida cristã?
Luís Felipe Borduam: Wesley afirmava que “o evangelho de Cristo não conhece religião, que não seja religião social e não conhece santidade, que não seja santidade social”. O Movimento Wesleyano foi primoroso em conseguir unir as duas faces de uma mesma moeda, a piedade cristã e as boas obras. Ouso dizer e referendado por historiadores como Jesse Lyman Hurlbut que esse movimento na história do cristianismo só pode ser comparado ao cristianismo primitivo. Uma vida de piedade altamente comprometida com a relação vertical com Deus e com a mesma intensidade comprometida com a horizontal na relação com o próximo. Wesley conseguiu resolver um problema que temos grande dificuldade atualmente. Ao mesmo tempo que ele tinha um grande apreço, respeito, reverência pelas autoridades constituídas ele conseguiu promover ações de combate à escravidão e foi um dos principais instrumentos para a abolição da escravatura, reforma na educação, nos presídios, assistência aos enfermos e necessitados. Não existe wesleyanismo sem vida cristã. Precisamos com urgência resgatar essa perspectiva e prática.
Blog OCP: A teologia de Wesley pode ser chamada de cosmovisão?
Luís Felipe Borduam: Esse termo tem ficado em moda hodiernamente. O problema é que quando se usa muito uma palavra em diversos contextos genéricos ela vai perdendo sua referência e verdadeiro significado. Recomendo com força os livros do Vinicius Couto (org.) Cosmovisão Cristã e o “Em favor do Arminianismo-Wesleyano”. Neles tanto os conceitos como a defesa do wesleyanismo como uma cosmovisão são claras ainda que no segundo livro de forma indireta. O Wesleyanismo certamente é um óculos que nos ajuda de forma comprovada tanto nas Escrituras como na prática a viver os princípios e valores eternos do cristianismo, portanto, sim, é uma cosmovisão cristã.
Blog OCP: Qual é a relação entre a teologia Pentecostal e a teologia Wesleyana?
Luís Felipe Borduam: O Movimento Metodista do século XVIII é o avô e o Movimento Wesleyano de Santidade do século XIX é o pai do Movimento Pentecostal. William Seymour era do Movimento de Santidade. A ênfase desse movimento na doutrina da segunda obra da graça (santificação) como uma experiência instantânea pós-conversão foi o fundamento de toda a teologia pentecostal posterior. Desacoplar o batismo com o Espírito Santo da justificação e diferençar o “batismo no corpo de Cristo” que acontece na regeneração de “batismo no Espírito” que acontece na vida do cristão foi basilar para todo o desenrolar posterior. Sem o wesleyanismo não haveria pentecostalismo.
Blog OCP: O senhor entende que um Pentecostal assembleiano pode ser Wesleyano ou pode ter choque de doutrinas?
Luís Felipe Borduam: Sabemos que existem muitas igrejas pentecostais de três obras como a Metodista Wesleyana por exemplo que é uma igreja pentecostal wesleyana. O pentecostalismo assembleiano brasileiro foi mais influenciado pelo pentecostalismo de Chicago de Durham (ex-batista) do que de Seymour (wesleyano). Todavia, sabemos que o embasamento teológico pentecostal deve direta ou indiretamente ao wesleyanismo. As diferenças são muito pouco expressivas em relação a qualquer outro grupo teológico. Portanto, o que nos une é infinitamente mais do que qualquer divergência pontual. Em palestra recente sobre o neopentecostalismo a luz do metodismo (https://www.youtube.com/watch?v=QSmgKnKQAsc) o Bispo Dr. Paulo Ayres que se tornou especialista em pentecostalismo e neopentecostalismo se auto afirmou ser atualmente um pentecostal metodista. Não vejo problemas em um pentecostal ser wesleyano. Assim como, nem os metodistas ou os Nazarenos defendem “ipsi literis” tudo que Wesley defendeu e isso vale para outras tradições como o luteranismo e o calvinismo, por exemplo. Portanto, ainda que tenha diferenças pontuais creio que os wesleyanos e os pentecostais têm muito para agregar um ao outro e até, por que não, fazermos novas fusões de igrejas como foi no Movimento de Santidade.
Blog OCP: O que o senhor pensa do movimento Pentecostal brasileiro?
Luís Felipe Borduam: O Movimento Pentecostal brasileiro deu uma cara evangélica para o Brasil que sempre foi dominado pelo catolicismo romano. Conseguiu dar vez e voz para aqueles vocacionados por Deus, mas, como disse Paulo, não tinham valor para este mundo (I Co.1:27-29). Foi e é um movimento de grande impacto e extensão que não vejo como explicar se não for pela graça e poder de Deus. A perspectiva contra cultura e anti-intelectual das décadas iniciais geraram um resultado alienante em certa medida e focar nos dons e no poder espiritual transformando, grosso modo, a santidade em usos e costumes e desidratando a perspectiva social seriam críticas que eu apontaria, apesar que analisando o contexto histórico da época talvez fosse justificável. Penso que a descoberta do Movimento Pentecostal de sua raiz wesleyana será uma ferramenta muito saudável para o wesleyanismo redescobrir seu poder transformador e o pentecostalismo brasileiro resgatar a ênfase na santidade bíblica e nas obras sociais de transformação a lá Wesley.
Blog OCP: Cite obras para quem quer conhecer a fundo a igreja do Nazareno e a teologia de John Wesley, bem como sua história.
Luís Felipe Borduam: Para conhecer a Igreja do Nazareno recomendo nosso site global https://nazarene.org/ e o Manual da Igreja que inicia com um resumo de nossa linda história e identidade. Esse manual você consegue gratuitamente por esse link: https://nazarene.org/manual só selecionar o idioma que deseja e baixará uma cópia em pdf.
Sobre Wesley, sua teologia e movimento, seguem outras indicações:
CHADWICK. Samuel. O caminho para o pentecostes. CNP. 1998.
COLLINS. Kenneth. Teologia de John Wesley. 1ªed. RJ. CPAD, 2010.
DORNELAS. João Wesley. Pequena história do povo chamado metodista. (A Igreja Metodista de Vila Isabel disponibiliza gratuitamente em pdf, pois eles tem autorização: http://www.metodistavilaisabel.org.br/docs/Pequena-Hist%C3%B3ria-do-Povo-Chamado-Metodista.pdf)
GREATHOUSE. William M. Dos apóstolos a Wesley. Campinas. CNP. 2002.
MATEO. Lelievre. Sua vida e obra. Ed. Vida.1997.
______________. Teologia de John Wesley. Sal Cultural. Maceió. 2015.
NOBLE. Thomas A. Trindade Santa: Povo Santo. A teologia da perfeição cristã. Ed. Sal Cultural. 2015.
THORSEN. Don. Calvino versus Wesley. Duas teologias em questão. RN. Ed. Carisma, 2018.
WILEY E CULBERTSON. Introdução a teologia cristã. CNP. Campinas, 2009.
WYNKOOP. Mildred Bangs. Fundamentos da Teologia Armínio-Wesleyana. Campinas. CNP. 2004.
Sermões de Wesley gratuitos no site da FATEO: http://www.eventosfateo.com.br/sermoes/
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