O Dispensacionalismo é Mal-Interpretado


Nesta nova série de entrevistas, conversamos com mais um irmão em Cristo sobre o Dispensacionalismo: o professor André Luiz.





Ele, assim como o professor Saullo Stan, vai trazer importantes informações sobre esse sistema de interpretação das Sagradas Escrituras.





Ele vai se apresentar a vocês abaixo, contando um breve e edificante testemunho.





Irmão André Luiz





Sou esposo de Juliana Vilar, e pai de Andrey Vilar. 





Meu primeiro contato com a Palavra de Deus foi muito cedo, pois minha mãe – a Irmã Edna – se converteu quando eu tinha cerca de 2 aninhos. Assim, cresci recebendo da minha amada mãe e da Igreja Assembleia de Deus a doutrina de Cristo. Porém, na Adolescência, influenciado por colegas, e, claro,  pelas estratégias do inimigo de nossas vidas, me distanciei da Igreja, e passei muitos anos fora da comunhão com os meus irmãos e até com Deus. Aos 33 anos de idade, pela Misericórdia, pela Graça e pelo Amor de Deus, fui restaurado e voltei à comunhão. Louvado seja Deus. Estou há 10 anos servindo a Deus. E foi a partir dessa nova fase que o Espírito Santo colocou em meu coração o desejo por aprender mais da Palavra de Deus. Nesse tempo, estudei no Centro de Treinamento Bíblico Rhema, e logo depois decidi fazer um Curso de Teologia Reformada. Desde então, tenho me dedicado ao estudo da Bíblia, em especial a Teologia Sistemática - com um amor especial pela Doutrina do Fim, Escatologia. 





Estou certo de que serei sempre um aprendiz da Palavra de Deus - um discípulo do Senhor Jesus, e sou grato a Deus pelo que a Bíblia Sagrada tem feito na minha vida, e na minha família.





Professor André Luiz de Souza








Blog OCP: Quando surgiu o interesse pela escatologia?





André Luiz de Souza: Desde muito cedo. Lembro-me de que, ainda quando criança, eu era fascinado pelas gravuras de Jesus Cristo no seu Glorioso Retorno nas Escolas Dominicais. 





Mas, nos últimos dez anos, o interesse aumentou muito, depois de estudar no Centro de Treinamento Bíblico na minha Igreja – tive uma boa base sobre a Escatologia Bíblica Dispensacionalista. A Partir daí, busquei conhecer mais o tema e percebi que, hoje em dia, é pouco ensinado nas Igrejas Cristãs e, por isso, muito mal interpretado. Hoje, pela graça de Deus, tenho me aprofundado no assunto, e posso dizer que temos muito material bom disponível, mas há muito ainda para se aprender sobre essa Doutrina de Jesus Cristo - essencial para todo Cristão.





Blog OCP: O irmão entende que a escatologia é a disciplina menos trabalhada na área de teologia sistemática?





André Luiz de Souza: Não diria que é a menos trabalhada, mas com certeza,  uma das menos trabalhadas. Pois, na Teologia Sistemática temos muitos temas, entre eles:







Bibliologia 





Teontologia (Teologia Propriamente Dita)





Cristologia 





Pneumatologia





Antropologia Teológica 





Hamartiologia





Soteriologia 





Angelologia e Demonologia 





Eclesiologia 





Escatologia







E, embora eu entenda que os temas da Teologia Sistemática nem sempre podem ser aplicados à doutrina na Igreja da mesma forma que são estudados na Teologia, eu acredito que – uma vez que a Bíblia Sagrada trata de cada um desses temas, e todos eles são essenciais – faz-se necessário que a Igreja do Senhor os aborde de forma doutrinária entre os irmãos. 





Hoje, tenho percebido que muito pouco se fala, por exemplo, da Pessoa de Deus Pai, seu caráter e atributos, sua soberania, seu amor, e justiça; da mesma forma, pouco se tem ensinado nos púlpitos sobre Cristologia, sobre a obra e a pessoa do Deus Filho, sua dupla natureza, sendo Ele Deus pleno e homem pleno; ou, ainda, sobre o pecado e suas consequências.





Essa falta no ensino desses temas bíblicos e centrais também é refletida na falta de conhecimento dos irmãos em Cristo a respeito da nossa Esperança Futura – ou seja, Escatologia.





Sim, a Escatologia tem sido esquecida nos ensinos da Igreja do Senhor, e isso tem produzido crentes desesperançados, imediatistas, esquecidos da nossa esperança, que é a breve vinda do nosso Senhor Jesus Cristo para galardoar uma Igreja santa, pronta, que com certeza deveria está O esperando, com fé e alegria, como uma noiva espera o seu noivo.





Blog OCP: O irmão entende que, entre os dispensacionalistas, o Dispensacionalismo é mais mal compreendido do que bem compreendido?





André Luiz de Souza: Na verdade, eu percebo que muitos de nós nos declaramos Dispensacionalistas sem saber, de fato, o que é o Dispensacionalismo. 





Por isso, sim, entre os que se declaram Dispensacionalistas há muitos que não sabem o que é ser dispensacionalista. Por isso não compreendem o sistema, e o pior, ensinam erros que acabam por ser tratados como falhas do Dispensacionalismo, quando na verdade são faltas dos ditos dispensacionalistas. 





Neste blog tem uma excelente entrevista com o Mestre Saullo Stan, em que ele traz esclarecimento sobre esse sistema teológico de interpretação bíblica que é o Dispensacionalismo. 





Creio que, para quem deseja se aprofundar no tema, é importante buscar literaturas a respeito, como: John F. Walvoord,  Charles Ryrie, Michael Vlach, John S. Feinberg, Craig A. Blaising, Darrell L. Bock, entre outros.





Blog OCP: Que erros geralmente são ensinados e que são tratados como falhas do Dispensacionalismo?





André Luiz de Souza: Entre muitos ministros declarados dispensacionalistas, existem alguns enganos, que geram ensinos errôneos. Entre esses erros, que são muitos, posso destacar alguns aqui:





  • A Salvação no Antigo Testamento era pelas Obras da Lei, porém no Novo Testamento a Salvação é pela Graça, mediante a Fé em Jesus Cristo.




Esse é um erro, de fato, pois Deus não mudou a forma de Salvação, que sempre foi, e sempre será pela Graça, mediante a Fé como está escrito em Efésios 2.8-10.





Infelizmente, os críticos do sistema Dispensacionalista acusam o sistema de ser o responsável por essa abordagem errada, quando, na verdade, o Dispensacionalismo jamais aborda a Salvação dessa forma.
Nesse caso, a grande dificuldade é – na minha opinião – causada pela abordagem de alguns Dispensacionalistas clássicos e importantes para o sistema que fizeram comentários com essas implicações. Scofield, por exemplo, que na sua Bíblia de referência de 1909, comentando João 1.17, disse que a Graça, como uma dispensação, começa com a morte e ressurreição de Jesus, e que a partir daí não é mais a obediência à lei uma condição pra a salvação, mas a aceitação ou rejeição de Jesus Cristo.





Comentário na Bíblia Antiga:





“Como uma dispensação, a graça começa com a morte e a ressurreição de Cristo (Rm 3.24-26; 4.24,25). O ponto aqui não é mais a obediência à lei como condição da salvação, mas a aceitação ou rejeição de Cristo, com as boas obras como fruto da salvação.”





Claro que esse mal entendido foi corrigido. O Dispensacionalista Charles C. Ryrie diz em seu trabalho Dispensationalism Today que os dispensacionalistas antigos como Scofield, não ensinaram várias formas de salvação. Mas eles fizeram “declarações descuidadas que poderiam ter sido mais bem escritas se elas estivessem sendo feitas à luz do debate de hoje em dia”.
Ryrie pediu, ainda, que os não-dispensacionalistas reconhecessem a significativa mudança da Nova Bíblia de Referência Scofield sobre João 1.17, na qual o texto polêmico foi removido e uma declaração clara de um único caminho para a salvação foi confirmada.





Comentário atualizado:
“Na dispensação anterior, a lei se mostrava impotente para garantir justiça e vida para uma raça pecadora (Gl 3.21-22). Antes da cruz, a salvação do homem foi por meio da fé (Gn 15.6; Rm4.3), tendo como base o sacrifício expiatório de Cristo, visto antecipadamente por Deus; agora está claramente revelada a salvação e a ressurreição do Salvador.”





Dispensacionalistas comentem erros, mas isso não faz do Dispensacionalismo um sistema teológico errado.





Outro erro comum, que se torna um mito sobre o Dispensacionalismo é que ele ensina o antinomianismo. Antinomianismo é a visão que defende que não é necessário que os cristãos preguem e/ou obedeçam a lei moral do Antigo Testamento (extrema descontinuidade).
Mais uma acusação sem fundamento contra o Dispensacionalismo, porém justificada, pois temos alguns dispensacionalistas que, por mau entendimento do sistema, afirmam que não é necessário cumprir a Lei Moral do AT, e muitos chegam ao ponto de desprezar a leitura, estudo e aplicação desses mandamentos na Igreja.
Mais uma vez, de forma nenhuma o Dispensacionalismo ensina essa visão.





Existem outros erros e mitos, mais simples que posso citar aqui como:
O dispensacionalismo ensina que Deus administra seu Plano em Sete dispensações, o que não é necessariamente um erro, mas que não condiz como o que é essencial para o Dispensacionalismo, uma vez que existem dispensacionalistas que defendem a existência de três, quatro, sete e até oito dispensações, sem deixar de ser Dispensacionalistas por isso.





Devemos lembrar que dentro de qualquer sistema sempre haverá subdivisões- e isso é normal - desde que se mantenha em comum o que é essencial, o “sine qua non” do sistema.





Por fim, acredito que é importante entender do Sistema, antes de afirmar que essa ou aquela crença são inerentes ao sistema, quando na verdade são visões individuais.





O Dispensacionalismo, aborda a interpretação das Escrituras Sagradas, as relações de continuidade e descontinuidade entre o Velho e Novo Testamentos, e isso trará implicações predominantemente eclesiológicas e escatológicas, não tendo em sua essência conclusões soteriológicas, por exemplo.





Assim, o sistema não deve ser definido por declarações, ou crenças de seus seguidores, o que define o sistema são seus pressupostos e sua essência.





Existem dispensacionalistas e dispensacionalistas, mas há apenas um Dispensacionalismo.





Os erros cometidos pelos Dispensacionalistas devem ser reconhecidos e corrigidos. Mas jamais devem ser apontados como falhas do Sistema.





Blog OCP: A fim de recapitular para nossos leitores, o que é dispensacionalismo?





André Luiz de Souza: Dispensacionalismo é um sistema teológico ou uma abordagem teológica das Escrituras Sagradas que As interpreta com uma maior descontinuidade na relação entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento - exemplo : Há alianças e promessas para Israel que vão se cumprir para Israel; e há promessas para a Igreja que vão se cumprir para a Igreja. É por isso, que um dos fundamentos essenciais do Dispensacionalismo é a distinção entre Israel e a Igreja. Outros sistemas teológicos que abordam uma maior continuidade entre o AT e o NT - geralmente não fazem distinção entre Israel e a Igreja, chegando a considerar que a Igreja hoje é o Israel de Deus, o que implica que as promessas e alianças feitas com Israel se cumprem plenamente na Igreja, e que não há mais nada para se cumprir para o povo se Deus — Israel. 





Além dessa característica essencial do dispensacionalismo, podemos citar outras que o distinguem dos outros sistemas teológicos e, de certa forma, definem o Dispensacionalismo:





- Vários sentidos para expressões como - judeu, Israel, descendência de Abraão, nação santa - povo escolhido - a depender do contexto; 





- A Hermenêutica Literal que enfatiza que o Antigo Testamento seja entendido com seus próprios termos e não reinterpretado à luz do Novo Testamento;





- A crença de que as promessas do Antigo Testamento serão cumpridas na nação de Israel;





- A crença num futuro distinto para o Israel étinico;





- A crença de que há uma clara distinção entre Israel e a Igreja;





- O Dispensacionalismo é um sistema teológico que enfatiza a Glória e a Graça de Deus.





Blog OCP: Amado, quais são as promessas para Israel? E quais são para a igreja?





André Luiz de Souza: A depender do Sistema Teológico, essa pergunta pode ter diferentes respostas. Pois numa visão Aliancista, por exemplo, as alianças e promessas para Israel são alianças e promessas para a Igreja, uma vez que acreditam que a Aliança da Graça se desdobra nas demais alianças que são feitas para o Povo de Deus, que foi representado por Israel, e que hoje é substituído pela Igreja.
Já numa visão Dispensacionalista, essa reposta tem outra abordagem, uma vez que entendemos que as Alianças feitas no Velho Testamento tem suas partes e seus termos bem definidos, e por interpretar essas alianças e promessas de forma literal, entendemos que elas foram feitas entre Deus e Israel. Se Deus prometeu algo a Israel, essa é uma Aliança com Israel e não com a Igreja. E quando Deus promete algo para a Igreja, essa promessa será cumprida para a Igreja.





A aliança Abraâmica (Gn 17.1-14) é claramente uma Aliança entre Deus e Abraão com promessas para a descendência dele que viria a ser o Povo de Israel – essa Aliança envolve promessa da Terra de Canaã e, da parte do homem, envolve a circuncisão como sinal da Aliança (Gn 17.11). Essa Aliança claramente não foi feita com a Igreja, mas entre Deus e o Povo de Israel.
O mesmo veremos com a Nova Aliança (Jeremias 32.31-40)





Jeremias 31:31. Eis que dias vêm, diz o SENHOR, em que farei uma aliança nova com a casa de Israel e com a casa de Judá.






Não há dúvidas de que, segundo as Escrituras Sagradas, a Nova Aliança foi feita entre Deus e a casa de Israel, e a casa de Judá – ou seja – com o Povo de Israel. E cada promessa contida nessa aliança é para ser cumprida plenamente em Israel.





Mas alguém pode perguntar: E a Igreja? Ela não está na Nova Aliança?





Mais uma vez, a depender do Sistema Teológico, teremos um entendimento diferente. Num sistema de muita continuidade (Aliancismo p.ex.), a Igreja não só está na Nova Aliança, como a Nova Aliança, bem como a Abraâmica, se cumprem plenamente na Igreja. Num Sistema de muita descontinuidade (Dispensacionalismo Clássico) a Igreja não tem nada a ver com a Aliança Abraâmica, bem como, com a Nova Aliança. Porém, dentro do Dispensacionalismo temos vertentes que não vão concordar inteiramente com isso, sendo as interpretações de forma geral assim:





Dispensacionalismo Revisado - entende que a Nova Aliança foi feita exclusivamente com Israel, mas a Igreja é participante em Cristo. No entanto, a Nova Aliança não se cumpre na Igreja, mas somente com Israel, no Reino Milenar.
Dispensacionalismo Progressivo - entende que a Nova Aliança foi feita exclusivamente com Israel, mas se cumpre parcialmente na Igreja. No entanto, a Nova Aliança só se cumpre plenamente com Israel, no Reino Milenar.





Eu, embora não me defina como dispensacionalista clássico, revisado ou progressivo, sou dispensacionalista; contudo, faço consistente distinção entre Israel e a Igreja, e por isso vejo que as Alianças incondicionais feitas no Velho Testamento são todas exclusivas para Israel, mas – nesse caso – entendo que a Nova Aliança, p. ex. se cumpre parcialmente na Igreja (Atos 2), sendo a Igreja participante beneficiada pela Nova Aliança por causa de Cristo, mas não parte na Aliança. De forma que a Nova Aliança se cumpre na Igreja parcialmente, num aspecto, “já e ainda não”, mas só terá seu cumprimento pleno com Israel no Reino Milenar.
Já as promessas feitas à Igreja no Novo Testamento, como o Arrebatamento da Igreja, pra mim, é uma promessa exclusiva para a Igreja do Senhor.





Blog OCP: Podemos dizer o Dispensacionalismo é um sistema que dá mais ênfase à Israel que a Igreja? 





André Luiz de Souza: Como temos visto nesse Blog, o Dispensacionalismo não trata exclusivamente de uma doutrina específica, mas é um Sistema Teológico de Interpretação, que terá implicações maiores, por exemplo nas doutrinas de Escatologia e Eclesiologia. Isso, porque esse sistema adota uma hermenêutica predominantemente literal que vê uma maior descontinuidade entre o Velho Testamento e o Novo testamento, o que faz o Dispensacionalismo entender que há uma grande distinção entre Israel e a Igreja.





Mas não é só isso, também entendemos que O Dispensacionalismo não é centralizado em Israel ou na Igreja, ou em Escatologia, mas na interpretação da Profecia Bíblica, e na Glorificação de Deus. 





Então, quando um dispensacionalista bem informado ler o Velho Testamento, ele não vai enxergar a Igreja do Senhor, e a ênfase será totalmente voltada para Israel. Assim como, ao estudar o Novo Testamento, ele vai identificar o que trata com Israel e o que fala com a Igreja, e ainda, o que se refere a ambos os povos. A depender da linha seguida pelo Dispensacionalista, dentre as existentes no Dispensacionalismo, ele vai saber como aplicar o Velho Testamento em sua vida, enquanto componente do Corpo de Cristo - Igreja - e vai saber interpretar o Novo Testamento fazendo a devida relação com o Velho Testamento, sempre separando o que de fato está lá no Velho Testamento e se cumpre na Igreja, mesmo que parcialmente, e o que de fato se cumpre somente com Israel.





Assim, eu entendo que o Dispensacionalismo não dá ênfase a Israel, ou a Igreja, mas interpreta as Escrituras. De modo que, onde a Bíblia dá ênfase a Israel, o Dispensacionalismo observa essa ênfase, e o mesmo com a Igreja. 





Sempre fazendo a devida distinção entre esse dois povos da Profecia Bíblica.





Blog OCP: O pentecostalismo, no caso o brasileiro, é criticado também, por alguns, por ser majoritariamente Dispensacionalista. Há também quem diga que pentecostais não deveriam ser dispensacionalistas por ter sido um sistema criado por um cessacionista. O que o amado irmão tem a dizer sobre isso?





André Luiz de Souza: Em primeiro lugar devemos entender que o Dispensacionalismo não tem uma relação com a questão continuista ou cessacionista com referência aos Dons Espirituais.
O Dispensacionalismo é um Sistema Teológico de interpretação das Escrituras Sagradas com implicações diretas na Escatologia e na Eclesiologia, por tratar diretamente da relação entre a interpretação do Velho Testamento e do Novo Testamento. Na minha opinião, a forma de interpretação predominante no Dispensacionalismo – que é a hermenêutica literal – vem a cooperar com o entendimento Pentecostal a respeito dos dons Espirituais e sua continuidade, e, talvez por isso, esse sistema seja bem adequado aos pentecostais. Porém, como descrito na pergunta, o Dispensacionalismo não é um sistema Pentecostal, uma forte indicação disso está na sua origem que aconteceu no contexto da igreja reformada inglesa. Além disso, basta dar uma olhada com mais atenção e veremos que temos muitos irmãos cessacionistas que são adeptos do Sistema Dispensacionalista; o que nos mostra que, na verdade, o Dispensacionalismo não tem a ver com cessacionismo ou continuísmo de Dons Espirituais. O Dispensacionalismo não é continuista nem cessacionista.
Quanto às críticas aos pentecostais, como eu, que são Dispensacionalistas, acredito que são infundadas, e até, falaciosas. Não entendo que porque o Dispensacionalismo foi sistematizado por um cessacionista faça do sistema um sistema cessacionista.
Assim como, o Dispensacionalismo não é Calvinista ou Arminiano, ainda que na sua origem tenha se difundido entre aqueles que eram adeptos de uma soteriologia calvinista reformada.
Simplesmente não tem nada a ver uma coisa com a outra.





Blog OCP: Qual é a relação que o professor faz entre o Dispensacionalismo e o Pentecostalismo?





André Luiz de Souza: Na verdade, eu não vejo relação direta - uma vez que o Dispensacionalismo, como sistema Teológico de interpretação das Escrituras Sagradas, não trata dessas questões a respeito da continuidade dos Dons Espirituais. Como um cristão pentecostal, eu percebo ser confortável, digo até adequada a hermenêutica utilizada no Dispensacionalismo para o entendimento Pentecostal, uma vez que a interpretação mais literal dos textos no Novo Testamento apoia o entendimento a respeito da continuidade dos dons e das manifestações espirituais - como o falar em Línguas, por exemplo.
Porém, isso não faz do Dispensacionalismo um sistema Pentecostal ou Cessacionista.





Blog OCP: O irmão entende que os problemas do Evangelicalismo brasileiro são a causa do desinteresse em Escatologia ou é o contrário?





André Luiz de Souza: Interessante pergunta. De forma geral, eu vejo que o Evangelicalismo no Brasil tem muitos problemas. Na minha opinião, um deles está relacionando ao desvio do foco da Palavra de Deus – que é Jesus Cristo – percebo que, há algum tempo, boa parte da Igreja tem buscado atrair as pessoas com mensagens motivacionais, promessas de sucesso, prosperidade, cura, etc. E não há nada de errado em ser próspero e crer que Jesus Cristo cura, isso até faz parte da “Boa Notícia”. O problema é o foco no Sucesso em detrimento da Grande Boa Notícia que é o Evangelho. E qual é a Boa Nova?
A Redenção em Jesus Cristo – A Salvação do Tormento Eterno – A certeza de que Cristo morreu por nós na Cruz e Ressuscitou ao terceiro Dia – Ele venceu a morte – Cristo Vive e a esperança de que, em Breve, Ele Voltará para nos buscar.





E é aí que entra a importância da doutrina da Escatologia.





Eu entendo que a falta do ensino da Doutrina do Fim nas igrejas afeta em muito a prática do Evangelismo.





1- O ensino da Escatologia revela a Glória de Deus, pois todos o eventos culminam em Jesus Cristo , seja na Sua Ressurreição, Segunda Vinda, Galardões, Juízos, Reino; Jesus é o Centro da Mensagem do Fim.
2- O ensino da Escatologia influencia a santidade do cristão, uma vez que trata claramente de Juízo Eterno, e das consequências de pecados;
3- O ensino da Escatologia motiva o serviço na Igreja, pois trata dos galardões, ou recompensas, que cada crente receberá segundo as suas obras.
4- O ensino da Escatologia tem grande influência no Evangelismo, pois traz para o crente uma
Consciência de Eternidade, o que o alegra, enquanto salvo, mas também o encoraja a pregar o evangelho o mais rápido e para um
maior número de pessoas, pois fica claro que o fim pode chegar à qualquer momento, e que existe muitos precisando da Palavra de Deus, que é a única forma de alcançar vidas para a Salvação (Rm 10.17).





Assim, vejo que o retorno de uma prática maior da Doutrina da Escatologia em nosso Pulpitos, com certeza, produzirá um evangelismo consciente, eficaz e motivado pela Esperança tão ensinada na Palavra de Deus – Jesus em Breve vem. Maranata ora vem Senhor Jesus.





Blog OCP: O irmão entende que a Igreja está se preparando para a volta do Salvador?





André Luiz de Souza: Além de ser Dispensacionalista, sou Pré-tribulacionista, assim, entendo que a Igreja do Senhor (o Corpo de Cristo), os Eleitos em Cristo (a Noiva do Cordeiro), todos seremos transformados e arrebatados na ocasião do Arrebatamento da Igreja – antes da Grande Tribulação. Ou seja, a nossa esperança está na vinda do nosso Senhor para nos Arrebatar.
O Arrebatamento, no meu entender, não é por merecimento, mas pela graça, assim como o é a Salvação.
Somente os salvos em Cristo serão arrebatados, ou colocando de outra forma: todos os que são verdadeiramente salvos, serão arrebatados.
Dessa forma, eu acredito que estar preparado para o Arrebatamento é ser salvo em Jesus Cristo. Essa deve ser a Esperança do Crente (1 Ts 1.10).





Por fim, eu entendo que todos que são verdadeiramente salvos em Cristo, exatamente porque são justificados em Cristo, transformados por dentro, nascidos de novo, SIM, esses estão prontos, preparados, para a Vinda do Nosso Senhor Jesus Cristo.





Sempre que falo disso, alguém questiona: Mas a Igreja não deve se preparar em santidade? Claro que sim, o verdadeiro crente, não vive em pecados, e se peca, é rápido em se arrepender. Vida de santidade é vida normal de um crente.
Quando estou falando de crentes, salvos, eleitos, nascidos de novo… estou falando de santos.
Aqueles que se dizem da luz, mas andam deliberadamente pecando, talvez até agora estejam em trevas (1João 2.9).
Esse não são contados como Igreja do Senhor, certamente são “frequentadores da igreja”, até praticantes de princípios, mas não são Igreja do Senhor, e por isso, não estão “preparados”. Até que se convertam verdadeiramente.


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