Um Amilenista Otimista


Com o intuito de trazer conhecimento aos leitores, o blog traz conteúdos sobre uma série de assuntos. Não significa necessariamente que seja a opinião dos editores, mas que queremos trazer informações sobre vários temas. É o caso deste diálogo. O blog, com este intuito, conversou com um conhecidíssimo pastor, grande irmão em Cristo: Thiago Titillo.





Atenciosamente, o pastor Thiago Titillo aceitou conceder ao blog uma segunda entrevista. Porém, diferentemente de sua primeira entrevista, nesta ele veio tirar muitas dúvidas a respeito desta linha escatológica: o Amilenismo.





Estimado leitor, aproveite esta entrevista. Assim como os demais, este diálogo está muito bom e você aprenderá muito. Aproveite!





Pastor Thiago Titillo (foto de sua página no Facebook)




Blog OCP: Pastor, você é amilenista. Diga para nós e nossos leitores o que é o Amilenismo. 





Thiago Titillo: O amilenismo é a posição escatológica que nega a existência de um reino milenar de Cristo com seus santos na terra. Geralmente, vê os mil anos do texto de Apocalipse 20 como o período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Outros amilenistas, com os quais eu concordo por razões exegéticas, afirmam que se trata de uma visão celestial. Seria uma referência aos santos que reinam com Cristo no período entre os dois adventos, mas no céu, no estado intermediário entre a morte e a ressurreição.





Blog OCP: Pastor, por favor, fale mais dessa visão espiritual dos mil anos.





Thiago Titillo: Existem elementos no texto que tornam quase que necessária a interpretação de que João está tendo uma visão do céu. Primeiramente, João vê “tronos” (20.4). Essa expressão aparece 47 vezes no Apocalipse, sendo que 45 vezes sua localização é no céu. Na verdade, o capítulo 20 representa o cumprimento da promessa de 3.21: Jesus venceu e sentou-se com seu Pai no trono, no céu. O texto afirma que, da mesma forma, os crentes que vencerem assentar-se-iam com Cristo, no céu. No capítulo 20, eis o cumprimento. Mas há mais elementos que mostram ser uma cena celestial: João vê “almas” (v. 4). João não vê corpos ressuscitados, mas “almas”. Trata-se de uma existência incorpórea. Claro, pode-se argumentar que tanto a expressão nephesh no hebraico quanto psyché no grego podem fazer referência ao ser humano como um todos, e não apenas à sua parte imaterial. Mas será que devemos decidir isso assim tão arbitrariamente? Quando – no relato do dilúvio – Deus diz que daria cabo de toda “alma”, evidentemente a expressão se refere ao indivíduo como um todo, à vida do ser humano. É uma referência à sua unidade orgânica. Da mesma forma, no dia de Pentecostes, Pedro prega e 3 mil “almas” se convertem. Não devemos pensar que somente os espíritos das pessoas se converteram enquanto seus corpos permaneceram no pecado! Mas quando o texto bíblico usa a expressão “alma” em contraposição ao “corpo”, evidentemente se trata da existência imaterial consciente após a morte. Jesus disse: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo” (Mt 10.28). Aqui, “alma” não pode significar a pessoa completa, pois ela é contraposta ao “corpo”, da mesma forma que em Apocalipse 20.4 ele menciona a “alma” e faz menção do “corpo” (decapitados). Ele não vê simplesmente “almas”, mas as “almas dos que foram decapitados”. O autor usa expressões muito semelhantes a 6.9, onde vê as almas dos que estão debaixo do altar pelo mesmo motivo: martirizados pelo testemunho e pela Palavra de Deus. A imagem do capítulo 6, certamente é do céu.





Blog OCP: Quando você se tornou um amilenista?





Thiago Titillo: Há muitos anos eu fui um calvinista pós-milenista. Confesso que muito do pós-milenismo ainda me influencia. Tornei-me amilenista, mas trouxe comigo muitos elementos do pós-milenismo, em especial, uma visão mais otimista do fim. Talvez isso não seja tão popular em um período de crise pandêmica. Mas estou convencido por diversos textos das Escrituras que posso esperar um avivamento mundial. Na verdade, mesmo abandonando o calvinismo, também percebo muitas influências calvinistas em mim, a começar pelos meus comentários bíblicos preferidos (os de Calvino) e pelos meus teólogos preferidos (em sua maioria, calvinistas). Em minha pregação, também há uma forte ênfase no estado deplorável do homem decaído, além de eu defender a segurança eterna dos salvos. Nós nunca saímos de uma terra sem trazer os despojos. Digo isso respeitosamente.





Blog OCP: Você é um amilenista que pode ser confundido com um pós-milenista. Afinal de contas, qual é a diferença entre um e outro? 





Thiago Titillo: Sua pergunta traz à tona o que eu afirmei na resposta à pergunta anterior: tenho uma visão otimista do futuro. Sou o que poderia ser chamado de “amilenista otimista”. Mas em que isso se diferencia do pós-milenismo? Realmente, a linha é bastante tênue. Talvez (veja que eu disse: talvez), um pós-milenista veja o progresso do evangelho de forma crescente e sem recuos. Isso certamente foi verdadeiro para os pós-milenistas mais antigos. Um amilenista otimista reconhece altos e baixos na história, mas antevê um futuro glorioso com base nas promessas bíblicas. Claro, o pós-mienismo sentiu-se forçado a rever seus pressupostos e certamente concordaria com avanços e recuos no processo de expansão do Reino na História. Isso torna as duas visões quase indistintas. Outro ponto é que, como eu disse, por questões exegéticas, entendo que o milênio de Apocalipse 20 é uma visão do céu, e não da terra. A maioria dos pós-milenistas estão dispostos a verem dois grupos: 1) as almas dos santos que foram decapitados, no céu; 2) os santos perseverantes que rejeitam adorar a besta, na terra (v. 4). Embora a sentença grega permita separar dois grupos, a leitura mais natural é de que se trará de um único grupo. Neste ponto, considero que esse grupo está reinando com Cristo no céu. Claro, alguns pós-milenistas, como Warfield e Boettner concordariam com isso.





Blog OCP: Quais são os textos bíblicos que endossam o avivamento mundial? 





Thiago Titillo: O Antigo Testamento traz inúmeras promessas de que as nações se converterão ao Senhor, e os que não se submeterem ao senhorio do Messias serão subjugados (Gn 12.2; Sl 2.6-9; Sl 22.27-28; Sl 72.7-11; Sl 102.1-2; Is 2.1-5; Is 9.6-7; Is 11.1-10; Ez 47.1-9; Dn 2.31-35; Dn 7.13-14). Isso é endossado pelo ensino do Senhor Jesus nas parábolas do Reino. O Reino é semelhante a um pequenino grão de mostarda, que ao crescer torna-se a maior de todas as plantas (Mt 13.31-32). Assemelha-se também ao fermento, que leveda não apenas parte da massa, mas toda a massa (vv. 33-34). O Evangelho levedará toda a terra. O próprio Senhor Jesus afirmou o avanço triunfante da Igreja contra o império da morte (hades). Note que Jesus diz que “as portas da morte não prevalecerão contra ela” (Mt 16). Naturalmente, os portões não são armas de ataque, mas de defesa. A Igreja avança e prevalece contra o império da morte. Mesmo a grande comissão é fundamentada na autoridade que Jesus recebeu no céu e na terra (Mt 28.18). O sucesso do empreendimento missionário às nações está na presença de Jesus: “estou convosco todos os dias, até a consumação do século” (v. 20). Aquele que tem toda autoridade está presente conosco no empreendimento de expansão do Reino. Não tem como dar errado. Veja que Paulo endossa essa ideia em 1 Coríntios 15.20-28. Segundo Paulo, Jesus somente entregará o Reino ao Pai após eliminar toda a oposição. A vinda de Cristo é, portanto, precedida de um rendimento total ao Senhor.





Blog OCP: Como o amilenismo entende o período tribulacional, bem como a Trindade do mal (besta, anticristo e falso profeta)?





Thiago Titillo: Geralmente, os amilenistas entendem que a grande tribulação será um evento mundial que precederá a vinda final de Cristo para consumar a História. De alguma forma, alguns de seus elementos já estavam presentes na guerra judaico-romana (66-70), mas durante a era da Igreja o bem e o mal crescerão lado a lado (como na parábola do joio e do trigo), eclodindo numa crise sem precedentes que terá as personagens da besta e do falso profeta (um líder político e um religioso) como principais antagonistas. Geralmente, o anticristo é visto como um sistema, não uma pessoa específica. Os amilenistas otimistas entendem que a grande tribulação foi judaica, ocorrendo durante a guerra judaico-romana e tendo seu ápice na destruição do Templo no ano 70. A figura da besta representa coletivamente o império romano e pessoalmente, Nero. O falso profeta, tanto quanto a besta que emerge da terra e a mulher montada sobre a besta tipificam a liderança corrompida de Jerusalém.





Blog OCP: Muitos afirmam que o Amilenismo, assim como o pós-milenismo, faz uma leitura alegórica das Sagradas Escrituras inteira. É correto afirmar isso? 





Thiago Titillo: Quem fala isso precisa estudar mais a fundo hermenêutica. A leitura alegórica remonta à escola catequética de Alexandria, tendo Orígenes como um dos seus principais proponentes. Ele herdou o método do judeu Filo, que procurava interpretar o AT de forma alegórica a fim de o tornar palatável à audiência helenista. Vamos a um exemplo da interpretação alegórica: a parábola do bom samaritano. Orígenes propôs que o homem que descia de Jerusalém para Jericó era Adão, a descida geográfica representava a queda, o ladrão era Satanás, o ataque era a tentação, e a ferida seria o efeito do pecado. O sacerdote e o levita representavam o judaísmo, enquanto o samaritano era Jesus. A hospedaria era a Igreja, o dono dela, o sacerdote. As duas moedas representavam o Pai e o Espírito Santo (já que o Samaritano era Jesus). A promessa de retorno para ressarcimento dos custos era a promessa da segunda vinda. Orígenes encontrou um tratado sobre criação, queda e redenção. Mas no texto errado. Qual o propósito da parábola? Era responder à indagação do doutor da Lei: “Quem é o meu próximo?” (Lc 10.29). A interpretação alegórica não respeita a intenção autoral, tampouco leva em consideração o contexto e o gênero literário. Um erro recorrente entre adeptos do dispensacionalismo, por exemplo, é afirmar que somente sua concepção leva a sério uma interpretação histórico-gramatical do Apocalipse. Espero que esse tipo de acusação seja por mera ignorância, e não por dolo. O uso adequado do método histórico-gramatical deve respeitar os gêneros literários usados no cânon bíblico: narrativo, legal, sapiencial, poético, profético, parabólico, epistolar, apocalíptico, etc. Interpretar um texto apocalíptico de forma literal é uma agressão tão grande quanto interpretar de forma simbólica um texto de gênero narrativo, por exemplo. O Apocalipse é escrito em três gêneros: apocalíptico, profético e epistolar (as sete cartas), sendo a maior parte uma fusão do profético com o apocalíptico. Tal fusão é permeada de figuras toscas como bestas com diversas cabeças e muitos chifres, além de números notadamente simbólicos. Forçar uma interpretação literal do Apocalipse é violentar o texto, pois ele não foi escrito para ser compreendido literalmente por sua audiência. Reconhecer os símbolos nas imagens e números do Apocalipse é lançar mão do melhor método histórico-gramatical.





Blog OCP: Há quem diga que amilenistas e pós-milenistas não valorizam Israel, esquecendo-se dessa nação ao tratar de escatologia. Há alguma verdade nesta afirmação?





Thiago Titillo: Depende do que se entende por “não valorizar” Israel. Israel, de fato, teve uma função dada por Deus, a saber, que as nações fossem abençoadas (Gn 12.1-3) por meio do descendente de Abraão, Cristo (v. 7; 15.1-11; 17.1-8; Gl 3.16). Os que creem em Cristo são os legítimos descendentes de Abraão e herdeiros da promessa (Gl 3.29). Após cumprir o seu propósito, Deus não rejeitou a nação escolhida (Rm 11.1). Esta rejeitou Deus, por isso, os ramos naturais foram substituídos pelos ramos de oliveira brava, os gentios (Rm 11.16-24). Claro, Deus queria manter os judeus (ramos naturais) junto com os gentios (ramos de oliveira brava) lado a lado, mas estes alcançaram seu estado pela fé em Jesus (Rm 9.30 – 10.21); aqueles foram cortados pela incredulidade. Os judeus crentes são o “remanescente segundo a eleição da graça” (Rm 11.5). Por fim, “todo o Israel será salvo” (v. 26), a saber o “Israel de Deus”, formado por judeus e gentios crentes (cf. Gl 6.16). Não vejo isso como uma depreciação de Israel, mas uma punição à nação apóstata, que foi rejeitada por ter primeiro rejeitado o seu esposo, sendo punida com sentença de morte em 70 (cf. Apocalipse).





Blog OCP: Quais são as principais diferenças entre os amilenistas e pré-milenistas?





Thiago Titillo: Os pré-milenistas entendem que haverá um reino literal de Cristo durante mil anos, com os santos ressuscitados, sobre a terra. Entendem que há uma sequência cronológica entre os capítulos 19, 20, 21 e 22 do Apocalipse. Os amilenistas entendem que o reino milenar é uma descrição da era da Igreja ou dos santos reinando com Cristo no céu durante a presente era. Não entendem que os eventos desses capítulos devam ser tidos como sequências cronológicas. Além disso, creem que quando Cristo vier, ambos – justos e injustos – serão ressuscitados e receberão ali seu quinhão final: céu ou inferno. Não haverá mil anos de separação entre a ressurreição dos justos e dos ímpios (cf. Dn 12.2; Jo 5.28-29).





Blog OCP: Os eventos do livro de Apocalipse são vistos como eventos não-sequenciais ou apenas os desses capítulos mencionados?





Thiago Titillo: Não são visto como sequenciais. Pelo contrário, às vezes os mesmos eventos são vistos de ângulos diferentes em capítulos diferentes. Veja: no capítulo 13, a união entre o poder imperial romano e o poder religioso judaico para perseguir os cristãos é visto, respectivamente, nas figuras das bestas que sobem do mar (Roma, além mar) e da terra (o poder religioso judaico, ilustrado por sinais prodigiosos que apontam para a religiosidade). No capítulo 17, o mesmo conluio para perseguir os cristãos é retratado. Agora, uma prostituta usando as vestes sacerdotais de Êxodo 28, com um cálice que aponta para um utensílio do Templo, além da inscrição na testa que é uma paródia do uso dos sacerdotes (“santidade ao SENHOR”) representa o poder religioso de Jerusalém, enquanto a besta na qual ela está montada é Roma, que dá legitimidade para ela perseguir os cristãos. Eventos são assim repetidos, de ângulos diferentes, por todo o livro. 





Blog OCP: Pastor, sabemos que também é preterista. O que é o preterismo? 





Thiago Titillo: A expressão preterismo é oriunda do latim, e significa: passado (pretérito). O preterismo é um método hermenêutico que interpreta muitos textos escatológicos como cumpridos no passado. Deve-se ter em mente que eram profecias que se cumpririam no futuro quando foram escritas, como boa parte de Mateus 24 e do Apocalipse, mas que já se cumpriram quando olhamos a partir do ano 2020. Minha leitura preterista entende que o sermão escatológico de Jesus responde a duas perguntas: 1) Diga-nos quando sucederão estas coisas (a destruição do Templo, cf. vv. 1-2)? E que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século? (v. 3). Até o v. 34, Jesus está tratando da grande tribulação que é a guerra judaico-romana, culminando da destruição do Templo: “não passará esta geração sem que tudo isto aconteça”. Este é um grande demarcador temporal! Do v. 36 em diante, Jesus responde à segunda pergunta: “aquele dia e hora que ninguém sabe”. O Apocalipse também é uma profecia sobre o juízo divino contra Jerusalém em 70. Os demarcadores temporais “coisas que em breve devem acontecer” (1.1) e “o tempo está próximo” (v. 3) colocam o cumprimento da profecia em um futuro próximo, e não milênios depois.





Blog OCP: Há outros textos bíblicos cuja profecia é interpretada como já foi cumprida?





Thiago Titillo: Diversos. Eu diria que a maior parte das profecias bíblicas tem a ver com a destruição de Jerusalém, que é um evento escatológico microcósmico apontando para o evento macrocósmico do juízo final de todas as nações. Zacarias 14 é um exemplo. A conspiração de Agripina para retirar Cláudio do trono e colocar seu filho, Nero, é profetizada por Paulo em 2 Tessalonicenses 2. E por aí vai...





Blog OCP: O preterismo é um método de interpretação muito aderido? 





Thiago Titillo: Não. Não é um método popular, mas foi adotado por muitos eruditos entre os séculos 19 e 20. Está havendo um avivamento do método no presente, em especial, no meio acadêmico. Teólogos do calibre dos falecidos Greg Bahnsen e R. C. Sproul advogaram esse método. Entre os teólogos em atividade, talvez o Dr. Kenneth Gentry seja o mais destacado. Jay Adams também é preterista. Na patrística, pode-se encontrar interpretações preteristas nos escritos de Orígenes de Alexandria, Eusébio de Cesareia e dos pais capadócios André e Arethas, por exemplo. 





Blog OCP: A escatologia ainda é muito estudada ou é ignorada? 





Thiago Titillo: Há duas reações opostas diante da escatologia: a fixação obsessiva e o medo incontrolável. Conheci crentes que queriam encontrar todos os acontecimentos e personagens da história mundial no livro do Apocalipse; outros que estremeciam só de ouvir falar em personagens como a besta e o falso profeta. Deve haver equilíbrio, evidentemente. Com a internet e a tradução de obras relevantes sobre o assunto para o nosso vernáculo, além da produção de teólogos nacionais, o assunto tem-se tornado mais acessível ao público estudioso. O desafio é levar tal conhecimento ao público leigo das diversas igrejas evangélicas.





Blog OCP: Das reações às quais se referiu, você diria que medo incontrolável é a mais forte?





Thiago Titillo: Creio que já foi mais. O conhecimento bíblico vem oportunizando líderes a orientarem suas comunidades de maneira que os fiéis possam ver o Apocalipse como um livro sagrado, cuja mensagem final é de vitória e triunfo do bem sobre o mal.





Blog OCP: Você é um pastor batista. Sua denominação é, digamos, aberta as várias linhas escatológicas? 





Thiago Titillo: A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira é amilenista. O artigo XIX fala da vinda de Cristo para julgar vivos e mortos, justos e ímpios em um único momento. Os justos recebendo a recompensa do céu e os ímpios sendo condenados ao inferno. Não há qualquer menção a um reino terreno intermediário de mil anos. Todavia, a denominação batista – refiro-me à CBB, da qual faço parte – é aberta às visões teológicas que não ultrapassem as margens da ortodoxia. Nela encontramos arminianos e calvinistas, cessacionistas e continuístas, amilenistas, pré-milenistas (históricos e dispensacionalistas) e pós-milenistas. Estou em meu escritório e acabo de virar-me à esquerda (sem qualquer conotação política!). Ao meu lado, diversas obras de Teologia de autores batistas. Tenho aqui amilenistas como Edgar Young Mullins, Alva Bee Langston, Isaque Nunes e Zacarias de Aguiar Severa. Há conceituados pré-milenistas históricos, como George Ladd, Millard Erickson e Wayne Grudem. Entre os pré-milenistas dispensacionalistas, vejo nomes como Henry Clarence Thiessen, Thomas Paul Simmons e Norman Geisler. Há batistas pós-milenistas como Augustus Hopkins Strong e Errol Hulse. Enfim, o “guarda-chuva” batista é bastante espaçoso para abrigar diferentes pensamentos que estão dentro dos limites da ortodoxia bíblica e teológica.  





Blog OCP: Você entende que a Igreja brasileira tem levado a sério a vida cristã, preparando-se para a volta do Salvador? 





Thiago Titillo: De maneira geral, sim. Igrejas sérias não perdem o foco da promessa de Cristo acerca da sua segunda vinda e da consumação de todas as coisas. Trata-se do maior desejo do crente. Maranata!





Blog OCP: Quais são as obras que recomenda àqueles que querem conhecer melhor o Amilenismo, bem como o pós-milenismo? 





Thiago Titillo: O amilenismo é muito bem apresentado por Anthony Hoekema em seu livro A Bíblia e o futuro. William Hendriksen também expõe essa visão em A vida futura segundo a Bíblia. O mesmo autor escreveu um bom comentário sobre o Apocalipse: Mais que vencedores. Sobre o pós-milenismo, em sua vertente preterista parcial, recomendo as obras do Kenneth Gentry: Pós-milenarismo para leigos e O Apocalipse para leigos. R. C. Sproul segue a mesma linha em Os últimos dias segundo Jesus. Mas a melhor introdução ao pós-milenismo é, sem dúvidas, A vitória do Reino de Cristo, de John Jefferson Davis. Para não ficar apenas na tradição reformada, o wesleyano Vic Reasoner escreveu um ótimo trabalho onde apresenta a visão pós-milenista: A esperança do Evangelho. Em breve, sairá meu livro sobre escatologia...





Blog OCP: Pastor, pode nos dar mais informações sobre seu novo livro? 





Thiago Titillo: Pretendo responder essa pergunta com calma e sobriedade, pois falar do meu novo livro me trará emoções fortes devido ao que aconteceu em meio à sua produção. Primeiramente, convém destacar que escatologia fala de esperança. Retornarei a isso. Eu escrevi os dois primeiros capítulos do livro e, logo em seguida, fui acometido de covid-19. Apesar de todos os cuidados que tomei, como por exemplo, o uso de máscara e saídas somente para o essencial (ex., mercado) e portando álcool 70 em gel, no dia 25 de abril iniciaram-se os meus sintomas. Logo isolei-me em meu escritório, pois além da minha esposa e meus filhos (a menina de 8 anos e um meninão de 1 aninho), meus pais idosos estavam morando comigo desde janeiro, visto que eu estava cuidando da saúde deles – fazendo curativos em suas úlceras, aplicando injeções anticoagulantes, etc. No dia 27 pela manhã senti falta de ar e imaginei o pior. No mesmo dia, meu pai, de 86 anos, deu início aos sintomas. Eu estremeci, afinal, trouxe meus pais para minha casa para cuidar deles, e agora meu pai poderia estar acometido de uma enfermidade que, por sua idade, poderia lhe ser fatal. Poucos dias depois, minha filha foi isolada no quarto dela ao iniciar com sintoma leve. Então, minha mãe, teve início aos sintomas. Ela tinha 75 anos, e confesso que meu pai, por já ter infartado e por ser 11 anos mais velho que ela, causava-me mais preocupação. Todos estávamos sendo tratados por médicos da família, usando medicações para combater os sintomas. A situação da minha mãe agravou, e no dia 9 de maio, um dia antes do Dia das Mães, precisei levá-la ao Hospital. Sua saturação e pressão estavam muito baixas, e os batimentos cardíacos acelerados. Nem pude me despedir dela. Da triagem ela foi levada para dentro do setor de emergência. Depois de um tempo, a médica – Dra. Priscila – veio e me disse que o caso da minha mãe era muito grave: seus pulmões estavam seriamente lesionados pela covid. Ela precisaria ser intubada. Ali, meu luto foi antecipado e eu já esperava o pior. Apesar dos protocolos não permitirem, deixaram-me entrar para (em meu entendimento) despedir-me dela através de um vidro. Sinalizei que estava tudo bem, que eu a amava muito e que ela ficaria boa. Mandei beijos e sorri. Ela devolveu com o sorriso que sempre me fortaleceu a vida inteira. Saí dali totalmente destruído. “Laços de morte me cercaram e angústias do inferno se apoderaram de mim” (Sl 116.3). Na manhã seguinte, Dia das Mães, segui com ela intubada e sedada na ambulância para o Hospital onde ela passou seus últimos 10 dias antes de partir, pois não havia vaga na UTI do Hospital onde foi recebida primeiramente. Na madrugada do dia 20 o telefone tocou. Claro, ninguém te liga 3 horas da manhã para dizer que está tudo bem. Algo ruim havia acontecido. Do outro lado, a recepcionista disse que a médica pediu meu comparecimento ao Hospital com os documentos da minha mãe. Reuni a última centelha de vida que tinha naquele momento para ouvir da médica o que eu já sabia. “Aquilo que eu temia me sobreveio” (Jó 3.25). Em meio a isso, minha esposa também adoeceu de covid. Graças a Deus, recuperou-se, como também eu, meu pai e minha filha. Nosso bebê não pegou. Mas há poucos dias eu havia escrito um capítulo inteiro afirmando que a covid não é um indicativo de que o final está próximo: a humanidade enfrentou outras epidemias, inclusive, crises econômicas, e isso não foi prenúncio da parousia final. Eu havia escrito que os problemas terríveis que estávamos enfrentando, como a pandemia, a consequente crise econômica e o desemprego, não representavam o afunilamento da História rumo à grande tribulação. Pelo contrário, esta já havia ocorrido no século I. Contudo, agora estava eu ali: enfrentando minha grande tribulação particular. Eu acabara de perder a pessoa mais amorosa, bondosa, generosa, inteligente e sábia com que Deus havia me presenteado. Eu possuo uma boa formação e tenho uma biblioteca respeitável. A maioria dos volumes em minhas estantes me foram dados por meus pais. Em especial, minha mãe sempre foi uma grande incentivadora. Investiu em minha formação (e de meu irmão). Afinal, ela era advogada e professora universitária. Cresci vendo minha mãe entre livros e livros, Mas ela era bem mais do que isso. Era Diaconisa, professora da Escola Bíblica Dominical, crente fiel... uma mulher admirável, que me deu muito mais do que eu mereço. E me perdoe por usar esse espaço como tributo à sua memória, mas não consigo não fazê-lo. Você pode me perguntar: e o que isso tem a ver com o seu livro? Eu respondo: tudo. Primeiro, o meu livro foi interrompido por uma tragédia pessoal. Mas escatologia é o estudo da esperança. E eu defendo no meu livro que dias melhores virão. Isso, na medida que o evangelho for se expandindo. Tento demonstrar como a História, ao contrário do que alardeiam, testemunha o avanço do Reino e sua influência positiva sobre a sociedade de forma geral. Por fim, haverá um novo céu e uma nova terra onde a morte e seu horror não mais nos afetará. Busco ainda apresentar as razões pelas quais a grande tribulação deve ser entendida como um evento de cumprimento pretérito, além de identificar as figuras apocalípticas da besta e do falso profeta. Separo um capítulo inteiro para tratar de Apocalipse 20. Eu espero que esse livro traga esperança e alento em meio a um momento tão difícil como o que vivemos. Essa é a minha oração.


Comentários

  1. Eu sou amilenista, mas na teologia luterana, que rejeita o pós-milenismo, mas achei bem interessante a entrevista. O relato final de sofrimento com a perda pela Covid me emocionou bastante. Deus abençoe esse pastor.

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